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sexta-feira, março 21, 2003
Tutti buona gente Quinta-feira estranha, Valentino vazio. E pra encerrar a noite, dar carrona pro guardador de carros até o terminal. E o que é mais estranho ainda: ele estava com a mãe. E, se não bastasse, a mulher falava igualzinho ao filho. "Valeu, sangue bom", disse a mãe do cara quando deixei eles na avenida São Paulo. O Luis foi no banco de trás com os dois. O guardador (devia ter pego o nome dele) disse que dando a carona eu ganhava uma espécie de "isenção", não ia mais me encher pra "dar uma moeda" quando saísse do bar. "Uma mão lava a outra, sangue bom", foram suas palavras. Achei um bom negócio, mesmo que eu nunca dê nada pra ele de qualquer jeito. Só o fato de não ter que negar toda noite já é alguma coisa. Disse que hoje só tirou doze e cinqüenta - às vezes faz até trinta reais numa noite. E trabalha também de dia. Quer dizer, a noite pra ele é um extra. Fica no Valentino de terça a domingo, pra garantir uns trocados a mais. De dia é mecânico, com curso em câmbio hidramático ou alguma coisa assim. Pois é. quinta-feira, março 20, 2003
Parece piada E a televisão portuguesa, a RTP, acabou sendo a primeira do mundo a dar o começo do ataque americano. Enquanto o correspondente deles em Bagdá mandava imagens e sons ao vivo das explosões, a CNN mostrava um cena estática e tranqüila de uma mesquita da capital do Iraque. Só alguns minutos depois os americanos (e a Globo na cola) falaram que "a guerra tinha começado". Isso era mais ou menos entre onze e meia e meia-noite de ontem. Aqui no Brasil as imagens da RTP foram transmitidas simultaneamente pela Cultura. Engraçado esse negócio de acreditar ou não em certas fontes. Na hora eu tive quase certeza de que o repórter português tinha comido uma barriga imensa, confundindo o barrulho das baterias anti-aéreas do Iraque com um bombardeio americano. Foi o que muitos canais chegaram a dizer: que as explosões que se ouviam eram das defesas do Saddam. Mas, afinal, bateria anti-aérea não explode (ou pelo menos não costuma). Outra coisa curiosa foi o furo aqui no Brasil ter saído na Cultura, que não tem lá uma estrutura muito grande. As imagens portuguesas eram de péssima qualidade, só se via a silhueta do repórter contra a janela do hotel e, lá fora, luzes disformes e verdes das ruas de Bagdá. (Eram imagens do videofone, aparelho que deve dar as caras muitas vezes durante esse ataque americano - a Ana Paula Padrão disse isso. Se eu não me engano deve ser um aparelho que é ao mesmo tempo telefone celular e câmera de vídeo. A transmissão da imagem é por telefone, pela Internet). E mesmo assim, apesar da má qualidade, foram as imagens e os sons mais realistas até agora. Deu pra sentir (um pouco) como é a sensação de quem está embaixo (ou perto) da chuva de bombas. Os barulhos são assustadores. Nada parecido com as imagens assépticas que a CNN costuma transmitir, de pontinhos fosforescentes contra o céu escuro. Terminologia E outra coisa interessante é como os jornalistas (ou o jornalismo) compram o discurso oficial da Casa Branca. Já se vê em quase todas as televisões que "começou a guerra no Iraque". Mas guerra deve pressupor dois lados combatendo, guerra passa a idéia de confronto de forças. O que existe no Iraque é um ataque, uma "ação militar" (como disse o Lula). Pode parecer bobagem, coisa de pouca importância, simples questão de terminologia. Mas palavras como essa ("guerra") podem dar à ação americana um pouco da legitimidade que ela não tem, dando a impressão de que há dois lados em conflito. O que está longe de ser verdade, dado o abismo militar entre um e outro. Carros parados Três e dez da manhã. O alarme de um carro lá embaixo disparou faz uma hora, e não pára de gritar. Daqui de cima dá pra ver um tiozinho parado em pé ao lado do carro, olhando pra ele com as mãos na cintura. Deve ser porteiro do prédio em frente ao carro. Já faz mais de dez minutos que ele (o porteiro) está daquele jeito. E o dono do carro nada de aparecer pra desligar. O coitado do porteiro não pode fazer nada - e o alarme bem debaixo da orelha dele - então olha desconsolado, no fundo tentando comover o carro pra parar de gritar daquele jeito. Isso se uma moradora, talvez a mulher do síndico, uma senhora de sessenta e poucos, não tiver interfonado pra portaria. Disse, com voz alterada, brava: "Joaquim, assim não tem jeito. Dá um jeito nesse carro. Não consigo dormir!". E desligou. E agora, Joaquim? Que situação! O carro não é de morador do prédio. Deve ser de um sujeito que veio trazer uma garota que mora no prédio da frente, numa república. E quem disse que o sujeito vai perceber que o alarme é do carro dele? Isso se já não estiver dormindo na cama da garota, que tá no segundo ano de Ciências Sociais. O alarme do carro toca trinta segundos, dá uma parada, e começa de novo. Nem deve ter sido por causa de arrombamento, esses carros gritam por qualquer coisa - ou por coisa nenhuma. E o Joaquim olha pro carro, que além de tudo pisca sem parar os faróis laranja. Mesmo se ele conseguisse tapar os ouvidos, ia ter também que fechar os olhos. Mas aí não iria perceber quem chegasse no portão. O que, afinal de contas, é a essência da função dele. domingo, março 16, 2003
Domingo escaldante Tem um filme que se chama "O Incrível Homem que Derreteu", ficção científica assustadora (pra época). É uma referência da minha infância, de muito tempo atrás. Tanto que guardei o nome da película mas nenhuma lembrança de alguma cena. Nem sei mesmo se cheguei a assistir. E tem também um filme nacional chamado "O Homem que virou Suco", com o José Dumont, aquele "ator étnico" que já reclamou, acho que na Caros Amigos, que só recebe papéis de pobre e de nordestino. Os dois filmes, apesar de não terem nenhuma relação, até hoje se confundem um pouco na minha cabeça. Tudo isso pra contar a estória de um homem nem tão incrível assim mas que também derrete. Era um domingo quente, daqueles de acordar depois das 13h (também conhecidas como 1 da tarde). Tinha um monte de coisa pra fazer pra segunda-feira, mas quem disse que ele conseguia levantar do sofá? As únicas coisas que se mexiam na casa eram seu polegar e o display dos canais. Numa velocidade vertiginosa, ia do 3 ao 70 e voltava. O único programa que um homem de brios pode assistir no domingo à tarde é futebol. Mas a final do Paulista só ia começar às seis. E não é qualquer um que agüenta a Soninha entrevistando o Valdir Peres e o Zenon na ESPN. Então começou a assistir o Faustão. Depois mudou pro Gugu. Voltou pro Faustão e viu a Sabrina do Big Brother e uma índia velha que faz simpatias. Foi aí que começou a se desfazer. Não dá pra dizer se foi o calor daquela tarde, se foi a radiação da TV ou mesmo se foi o próprio domingo. Mas a primeira coisa que derreteu foram suas idéias. Em um minuto ele passou a babar pelo canto direito da boca. A almofada ficou toda molhada. As últimas palavras que balbuciou foram "tenho que fechar as páginas pra amanhã". E seu rosto se desfigurou. Não gritava, só gemia baixinho. Depois derreteram os pés, as pernas, a barriga. Em menos de meia hora sobrava dele só uma cueca velha branca em cima do sofá. O telefone tocou, tocou, tocou. |