Short cuts
"Vai tomar no cú!", gritou andando no meio do povo e indo na direção da entrada do bar. Um desconhecido que andava na sua frente estacou de repente e virou pra trás, encarando. Era um sujeito (o desconhecido) magrelo, esguio, rosto chupado. Usava óculos e expressão de contrariado. A parte de baixo da boca mais grossa que a de cima. "Por acaso você não tá me xingando, não", começou, em um tom que ameaçava virar de ameaça (tinha um sotaque nordestino; ou pode ter sido só impressão, era a cara do Chico Anísio mais novo). O outro, com a surpresa, se explicou engolindo metade das palavras. "Porque eu já não tô muito bem...", continuou o magrelo. "Não, não". É verdade, nem era xingamento - era praga, protesto contra a merda de noite. Coisa pra guardar dentro da boca. Se tinha saído (e tão alto) era tudo culpa da pinga.
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Do lado de dentro, um sujeito e uma menina. Os dois tinham ficado a noite inteira de conversa, tête-a-tête. Naquela altura os narizes não chegavam a se afastar mais de cinco centímetros um do outro. Era aquela situação, aquele momento já meio ridículo, quando tá na cara que os dois estão a fim mas nenhum tem corragem (ou não bebeu o suficiente). E desse jeito ficaram quase uma hora, dividindo o ar. O pescoço do cara pendia pra esquerda e o sorriso (tentando ser marôto) caía pra direita. O pescoço da menina (um pouco mais baixa), vergado pra trás aquele tempo todo. Já não piscava. De repente (a coisa sempre rola quando ninguém tá vendo, mesmo se é no meio de muita gente) rolou. "Finalmente", dizia a cara de alívio da moça. "Agora espera um minutinho", e correu pro banheiro.
- o -
(...)
Personagem 1 (rindo): - Você ficou dançando Strokes ontem à noite no bar.
Personagem 2 (desentendido): - Dançando?
Personagem 1 (surpreso): - Ô, loco! Truco! O pessoal todo da mesa viu!
(2 segundos de silêncio)
Personagem 2 (resignado): - É, eu lembro...
Personagem 1 (silêncio)
Personagem 2 (tentando se safar): - Mas eu não tava dançando, eu tava pulando, e...
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