prolixidade

blogs para coment?rios longos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?
sexta-feira, junho 20, 2003
 
Receita de estrogonofe
Ingredientes: 150g de carne em cubos, uma porçao de farinha, cinco doses de conhaque e um pouquinho de pinga (pra dar gosto). Preparo: saia de casa numa quinta-feira, por volta das onze da noite, com um pouco de sono e algum mau-humor. Sente-se com os amigos num bar recém-reinaugurado, numa das mesas que ficam na calçada (embaixo da arvore é o ideal) e, depois de ficar alguns instantes em duvida, peça a primeira dose de conhaque. Beba o conhaque sem moderaçao, competindo com o Bruno pra ver quem entorna mais copos mais rapido. Sinta o cheiro da carne assando e fique com vontade (apesar de ter comido pra cacete um pouco antes). Peça um espetinho e outra dose de conhaque. Com rapidez, coma o espetinho e beba o conhaque (tome cuidade para nao inverter as operaçoes). Converse um pouco com o pessoal da mesa e peça outro espetinho e depois mais um. Beba mais uma dose de conhaque, dessa vez aos goles (nada de bicadinhas) e quando o garçom oferecer três espetinhos por dois reais, aceite (e dê um pro Renato). Beba a ultima dose de conhaque e va para o Valentino, perto das duas da manha. Pague ao Bruno a aposta feita no Kotovelo's e compre uma dose de Ypioca pra ele (aproveite e compre uma pra você também). Beba a pinga em dois goles longos e comece a ver o mundo turvo e enevoado. Saia meio fugido do Valentino e esqueça de avisar o Renato. Deixe o Bruno na casa dele e esqueça-se, depois, de como chegou na sua propria casa. Entre em casa e va, trôpego e às apalpadelas, até o quarto. Caia direto na cama. Acorde por volta das seis e meia da manhâ com a cabeça doendo e com engulhos no estômago. Levante-se e, trôpego e às apalpadelas, vah até o banheiro, sente-se no chao e se debruce sobre o vaso sanitario. Despeje aos poucos o conteudo de seu estômago na privada. A carne deve estar em pequenos pedaços. O conhaque bebido da ao vômito aquela coloraçao meio marrom meio dourada caracteristica do estrogonofe. A farinha dah consistência. Com a descarga, misture tudo e deixe descer pela tubulaçao. Vai bem com vinho tinto ou um antiacido efervescente.

quarta-feira, junho 18, 2003
 
Burocracia Diária
Almondegas e lobisomens (vampiros no BR?), "quando a lua cheia...", porno-terror em P&B interrompido pelo primeiro toque (soa de novo de nove em nove minutos, até beber o café), alterna du(r)as pegadas, invocando a súplica (palavra forte e vazia), closed information; Hoje foram só duas horas de sono e meia de atraso, "me traz a matéria lá, te vira", tiozinhos que se escondem do meu Panasonic e estereótipos de jornalista (admira), meio-dia e moleques arrogantes: "Viva Ernesto, Zapata e Eu (principalmente EU)", dedos em riste na cara seca do ex-estudante hoje ponderado (você amanhã, espelho do tempo); - discute aí pra eu gravar ("porque EU sei da nova hermeneutica e..."); Rua! "compra goiaba, aí, leva um quilo" (fruta de calçada), valeu; "me compra um pão?", estende a mão, não tenho, não (pra você eu não tenho); "Beleza", a tia (vai lá ver sua tia), a cunhada e a jovem senhora ociosa; sono atrasado e vespertino, boca seca às sete e quinze: água com gás agora vem em garrafas plásticas, "você paga só mais quatro reais pelas duas dúzias"; olheiras e cabelos molhados (na torneira), pingando no chão da sala de aula; moça agradável (mulher com mulher) e gagueira (foge, foge), culpa de quem? ironia pra cima de mim, "faz um cheque aí", grande bosta.

terça-feira, junho 17, 2003
 
Segunda-feira gorda

versão reduzida pra crianças

Meia-noite de segunda-feira, bateu o cansaço. A segunda-feira começou ontem, domingo, lá pelas três e meia da tarde, quando a gente desceu até um dos bares do Zerão. Tomei suco de laranja passada - podia até ter bebido cerveja com os caras. Mas à noite eu ia descontar a abstinência com a sempre pinga (no Valentino de todo domingo). Ainda no Zerão, duas garotas na mesa de trás. Vou reencontrar uma delas (ou ela me encontrou) à noite, bêbade e feliz, no Valentino: "la vida é bella", me disse; a mim, um desconhecido e bêbado. E começou a tirar de dentro da bolsa uma porção de bichinhos de pano que ela mesma fazia, nenhum deles muito bem resolvido. A gente se divertiu alguns minutos com eles (bêbado se diverte com pouco), tentando encontrar neles características de animais reais. Híbridos, enxertos, misturas. Tinha um galo com duas cristas (orelhas?) e uma casca de caramujo nas costas ("caracol!", ela me corrigiu) que eu achei parecido com uma lhama.

Até então não sabíamos o nome um do outro - nem era muito importante. "Felicidade", e apontei pro meu copo de pinga. Ela concordou. "Pena que não dá pra ficar feliz assim 24 horas por dia. É, os que tentaram morreram cedo". Afinal fiquei sabendo o nome dela, mas isso não importa. Impossível saber ou estimar quantos minutos a gente ficou em frente à porta do bar, atrapalhando o fluxo da noite movimentada. Incrível como bêbados se entendem fácil, inclusive em outras línguas (mas isso já é outra estória). Você é artista plástica? Não, sou fonoaudióloga mesmo.

Mas isso tudo aconteceu mais tarde. Volta umas seis horas antes, no Zerão. Aliás, na volta pra casa e o Bruno reclamando das escadarias. No caminho ele, bêbado, quase arranja confusão com seis caras que desciam a rua. Passou reto no meio do grupo, peito estufado. Os caras provocaram duas vezes, gritando de longe, mas a gente seguiu reto. Sorte deles. Isso era fim de tarde. Os dois (ele e o Renato) seguiram pro outro lado da cidade e não voltaram de lá.

Valentino à meia-noite, chegada a seco. Tive que recuar, voltar atrás pra tentar de novo mais tarde. Subi até o Jota e acho que pela primeira vez fiz o caminho sóbrio. A rua estava mais escura e mais vazia. Voltei do Jota com duas doses num copo, pelo menos do frio eu me protegia direito. Entrei de novo no Valentino; agora, pelo menos, segurando um copo. Já não tava mais sozinho. Encontrei um conhecido, suficiente pra segurar a onda até chegar reforço ou subir o álcool. Fiquei remoendo as idéias pra ter papo durante alguns minutos, conversa fiada, mole, até que vagou uma mesa lá fora. "Mesa". Tomamos posse.

Logo chega um sujeito estranhado, chapado, camiseta regata e esquentadinho. Bateu na mesa e falou pro meu companheiro de mesa, meio mandando: "e aí, cadê o pó?! cadê o pó?!" (estranho, mas parecia que eles se conheciam). O outro: "pô, não tenho, não...". "Então cadê as birita? Paga aí uma cerveja!". O cara nem era tão grande, mas o outro era muito franzino. Tanto fez que o franzino levantou da mesa dizendo que ia comprar a birita. Fiquei ali, esperto. Assim que o cara tinha perguntado da birita eu engoli de uma vez tudo o que sobrava no meu copo de pinga. Se ele pedisse um gole pra mim, com os mesmos modos, em ambas as opções ia ser complicado: se eu deixasse ou se eu não deixasse ele beber - com o copo vazio não tinha esse problema.

O cara continuou em pé, dizendo que tinha acabado de dar "umas porradas num viado lá dentro". Porque com ele era assim mesmo, viado levava porrada. (ele queria provocar alguém, confusão). Na mesa da frente tinham dois gays, e o chato começou a mandar beijinhos pra um deles. Me cutucava com o cotovelo e dizia: "olha só, olha só", e mandava mais um beijinho. "Cada um tem uma opção, cara", ele filosofava cuspindo as palavras, "cada um tem sua opção, mas que não vem chegar perto de mim!". Até que ele cansou rápido e foi embora. Levantei também, porque ele podia voltar pra encher o saco. Foi nessa hora que encontrei a moça com os bichos de pano.

E um pouco depois encontrei o companheiro franzino de novo, ele estava procurando o chato. Carregava uma dose de pinga e queria de todo jeito entregar pro chato. Estranhei, não imaginei que ele tivesse ficado tão intimidado. "Acho que ele entrou", disse a ele. Até que o chato apareceu de novo. O franzino pra ele: "tá aí, ó, a sua pinga". O chato bebeu dois ou três goles, devolveu o copo e saiu em direção ao portão. O franzino pra mim: "pinga com cuspe", e colocou o copo em uma das caixas de som. Até eu entender o que ele tinha feito eu demorei alguns segundos, tempo suficiente pra pensar em pegar a pinga escarrada pra mim. O franzino, que não tinha bebido nada a noite toda, também caiu fora.

Nisso já tinha chagado no bar o Fernando, a pinga (mais duas doses) já tinha subido. A língua estava solta e os modos menos polidos. Dormi pouco à noite, tive que acordar às sete da manhã. De manhã estágio. De tarde prova e filme. De noite aula de TV, a chatice dos links ao vivo. E agora? Tecnicamente já é teça-feira.

domingo, junho 15, 2003
 
Meaning
A gente lê nos livros que antigamente quem sofria muito com dúvidas "existenciais" podia acabar se enclausurando em um mosteiro, renunciando a todo o mundano. Tinha também os caras que se alistavam na legião estrangeira, fugindo de alguma coisa séria ou de um amor mal resolvido. Além, é claro, dos famosos eremitas, que renunciavam a tudo. Hoje nada disso faz muito sentido, ficou fora de moda. Às pessoas que acham que fuga ou renúncia são soluções, hoje só sobrou, entre os métodos clássicos, o suicídio. Pensando bem, também tem a famosa "viajenzinha pra espairecer"; mas essa é só um paliativo, fuga temporária - a imensa maioria dos que vão viajar acabam voltando.

Deve ser normal pensar numa dessas fugas drásticas uma vez ou outra. Comigo esse tipo de pensamento acontece, às vezes, movido por pura preguiça - começo a pensar numa porção de coisas complicadas que eu tenho que resolver ou numa porção de coisas complicadas com as quais eu tenho que lidar e me dá um comichão de fuga. (nota: entre as coisas complicadas com que eu tenho que lidar, pra mim, as mais complicadas são as (outras) pessoas).

Entrar pra um mosteiro e me dedicar só a trabalhos braçais - esquecer a leitura e largar a escrita é fundamental pra esse desligamento do mundo. Ou então fazer uma "viagem pra espairecer" de um ano e zerar tudo. Como se eu tirasse um extrato em que estivesse escrito que meu saldo estava zerado, nem contas nem créditos.

Mas um mosteiro deve ser muito chato, sem alternativas. E os saldos positivos, pra ser auto-sincero, acabam compensando os débitos em conta corrente. Que filosofiazinha vagabunda essa, hein? Mas por enquanto sustenta.