prolixidade

blogs para coment?rios longos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?
terça-feira, agosto 26, 2003
 


domingo, agosto 24, 2003
 
O que é Deus? O fiador e quintessência do mito usado para justificar o dominio do homem pelo homem. Essa repugnante invençao nao tem outra razao de ser. A medida que o mito, decompondo-se, passa ao estagio de espetaculo, o Grande Objeto Exterior, como diz Lautréamont, despedaça-se ao vento da atomizacao social e se degenera em um Deus para uso intimo, uma espécie de remédio para doenças sociais.
No ponto mais alto da crise aberta pelo fim da filosofia classica e do mundo antigo, o gênio do cristianismo vai subordinar a remodelaçao de um sistema mitico a um principio fundamental: a doutrina da Trindade. O que significa o dogma das três pessoas em Deus, que fara correr tanta tinta e tanto sangue?
Pela alma, o homem pertence a Deus, pelo corpo a autoridade temporal, pelo espirito a ele mesmo. A sua salvacao esta na alma, a liberdade no espirito, a existência terrestre no corpo. A alma envolve o corpo e o espirito, sem ela estes nada sao. Olhando com mais cuidado, encontramos uma analogia da uniao do senhor e do escravo sob o principio do homem encarado como criatura divina. O escravo é o corpo, a força de trabalho de que o senhor se apropria. O senhor é o espirito que, governando o corpo, lhe concede uma parcela de sua essência superior. O escravo se sacrifica portanto por meio do corpo ao poder do senhor, ao passo que o senhor se sacrifica por meio do espirito a comunidade dos seus escravos (o rei servindo ao povo, Lula servindo ao Brasil, o lava-pés da Igreja erc.). O primeiro oferece sua existência terrestre, em troca recebe a consciência de ser livro, ou seja, o espirito do senhor que nele desce. A consciência mistificada é a consciência do mito. O segundo oferece idealmente o seu poder de senhor ao conjunto daqueles que dirige. Mergulhando a alienaçao dos corpos na alienaçao mais sutil do espirito, ele economiza na dose de violência necessaria a manutençao da escravidao. Pelo espirito, o escravo se identifica, ou pelo menos pode se identificar ao senhor ao qual entrega sua força vital. Mas a quem podera se identificar o senhor? Nao aos escravos como coisas possuidas, como corpos, mas aos escravos como emanaçao do espirito do senhor em si, do senhor supremo. Uma vez que o senhor individual se sacrifica no plano espiritual, deve procurar na coerência do mito um par para o seu sacrificio: uma idéia de dominio em si a qual ele participe e se submeta. E´ por isso que a classe contingente dos senhores criou um Deus diante do qual se ajoelha espiritualmente para com ele se identificar. Deus autentifica o sacrifico mitico do senhor ao bem publico, e o sacrificio real do escravo ao poder privado e privativo do senhor. Deus é o principio de toda submissao, a noite que legaliza todos os crimes. O unico crime ilegal é a recusa de aceitar um senhor. Deus é a harmonia da mentira, uma forma ideal na qual se unem o sacrificio voluntario do escravo (Cristo), o sacrificio consentido do senhor (o Pai; o escravo é o filho do senhor) e o seu laço indissoluvel (o Espirito Santo). O homem ideal, criatura divina, unitaria e mitica na qual a humanidade é convidada a se reconhecer, realiza o mesmo modelo trinitario: um corpo submetido ao espirito que o guia para a maior gloria da alma - em que esta ultima é a sintese abrangente.
Esse é portanto um tipo de relaçao na qual dois termos tiram seu sentido de um principio absoluto, de uma obscura e inacessivel norma de indiscutivel transcendência (Deus, o sangue, a santidadem a graça etc.). Durante séculos, inumeraveis dualidades desse tipo cozinharam, com um bom caldo, no fogo da unidade mitica. E entao a burguesia tirou o caldo do fogo, e ficou apenas com uma nostalgia do calor do mito unitario e uma série de frias abstraçoes sem sabor: corpo e espirito, ser e consciência, individuo e coletividade, publico e privado, geral e particular etc. etc. Paradoxalmente, a burguesia, movida pelos seus interesses de classe, destruiu o mito unitario e sua estrutura tripartida em seu proprio detrimento. A aspiraçao a unidadee tao engenhosamente satisfeita pelo pensamento mitico dos regimes unitarios, longe de desaparecer com ela, exacerba-se, a medida que as pessoas tomam consciência da natureza material da separaçao. Revelando os fundamentos econômico-sociais da separaçao, a burguesia fornece as armas que devem garantir o seu fim. Mas o fim da separaçao implica o fim da burguesia e o fim de qualquer poder hierarquico. E´ por isso que qualquer classe ou casta dirigente se encontra incapaz de operar a transformaçao da unidade feudal em unidade real, em participaçao social autêntica. Essa missao so pode ser cumprida pelo novo proletariado, que deve arrancar dos deuses a terceira força, a criaçao espontanea, a poesia, para guarda-la viva na vida cotidiana de todos. A era transitoria do poder fragmentado nao tera passado de uma insonia no sono, indispensavel fim da linha da linha para a inversao de perspectiva, necessario pé de apoio antes do salto da superaçao.

A autoridade mistica do senhor feudal era bastante diferente da autoridade instituida pela burguesia. O senhor nao mudou simplesmente o seu papel e se transformou em patrao. Uma vez que a misteriosa superioridade do sangue e da linhagem foi suprimida, sobrou apenas um mecanismo de exploraçao e uma corrida ao lucro que nao tem outra justificativa a nao ser ela mesma. Patrao e trabalhador sao separados por uma diferença quantitativa de dinheiro ou de poder, e nao mais pela barreira qualitativa da raça. De fato, o que torna a exploraçao tao odiosa é que ela é exercida entre "iguais". A burguesia justifica - sem querer, é claro - todas as revoluçoes. Quando as pessoas deixam de ser iludidas, deixam de obedecer.