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sexta-feira, outubro 24, 2003
 
Censo comum
Afinal, ela não apareceu. Mas a espera inútil me fez ficar quase meia hora ali em baixo, na portaria do prédio. Fazia tempo que eu não conversava com o Gersiley, o porteiro da noite (entra às 18h e sai à meia-noite). Na verdade "conversar" não é bem a palavra, eu mais ouvi ele falar. O pessoal aqui do prédio e os outros porteiros chamam o cara de Barney - pra facilitar, por causa do nome difícil, e também por causa da semelhança dele com o amigo do Fred Flintstone.

Sempre fico imaginando o tédio da vida de porteiro, nada pra fazer. Uma pessoa tem que matar o tempo com alguma coisa. Porteiro (pelo menos a maioria) não perde oportunidade de bater qualquer papo, rápido que seja. E eu sempre me impressiono com o conhecimento que eles têm da vida alheia. E não é só da vida do pessoal daqui do prédio, não. Naqueles minutos que eu fiquei por ali ele comentou sobre umas três ou quatro pessoas que passaram na rua, que moram nas redondezas. "Aquela ali [uma menina de uns 17] o pai tem fazenda no Mato Grosso. Mora no Castel Franco [um prédio aqui do lado]". Ou então, "olha o [não lembro do nome], aquele é uma 'tranqueira' [rindo]. Faz triatlo, conhece ele?".

E agora o prédio tem câmera no elevador. Mais uma fonte de informações pra ficar de olho na famigerada intimidade das gentes. "Aquela ali vai ficar mais bonita do que a irmã", ele comenta enquanto olha no monitor a imagem de uma garotinha de uns 11 ou 12, que desce até a garagem com a mãe. Diz sem malícia, é verdade. É um sujeito legal, o Gersiley. Eu não chamo ele de Barney; aliás, não sei direito o nome dele (aqui fica sendo Gersiley). Quando vou me dirigir a ele eu meio que mastigo as letras e solto alguma coisa meio indecifrável, que termina com "...ley". "Ghrselmpf... ley", assim.

"Mulher é fogo, a gente fica sempre esperando", ele tentava me animar "jovialmente". Logo depois me contou sobre um dos passatempos que ele inventou esses dias. "Como tem mulher nessa cidade, hein? Outro dia mesmo eu fiquei contando e passaram aqui na frente 42 homens e 270 mulheres". "Comecei a anotar aqui, ó: mulher na coluna da esquerda e homem na direita". "Mulher", ele explicou o critério, era qualquer pessoa do sexo feminino, de qualquer idade. "Olha só", e começou a apontar pra rua. Fiquei meio inclinado a concordar com a teoria dele. Em pouco menos de um minuto passaram mais de dez mulheres e uns dois ou três homens.

Aí veio o embasamento científico. Primeiro o comentário: "as mulheres vão dominar a gente um dia", e enquanto eu penso em dizer alguma coisa ele completa, rindo: "se bem que tem alguns que já são dominados". E a comprovação empírica: "porque você vê, nesses programas policiais a gente assiste que quase só morre homem. E você vai na maternidade e nasce mais mulher. Nasce mais mulher e morre mais homem". Tem uma lógica. O cartesianismo, a escola de Frankfurt, as correntes neomarxistas e minha formação acadêmica (formação sólida, conquistada em quase três anos de CECA) me dizem: "essas conclusões são simplórias, ele não tem estudos". Mas no fundo, no fundo não consigo descobrir por que ele não tem razão.

Como ela não chegava, resolvi aproveitar pra subir: comer alguma coisa e telefonar. Mas encontrei, no chão, em frente a porta do elevador, um filhote de pomba. Sei lá como ele foi parar na porta do elevador. Peguei ele, depois que ele tentou fugir algumas vezes meio desesperado. Estranho como a gente pensa (eu pelo menos). Difícil aceitar que alguém (ou algum bicho) fuja da gente quando a gente só tá querendo ajudar. Acabei não subindo e voltei pra portaria com o bicho na mão. O Barney: "Ah, esses bichos morrem rápido. Essa semana mesmo eu achei um e deixei numa caixinha. Não deu muito tempo e ele morreu. E os gatos pegam. Coloca ali no canteiro".

Coloquei o filhote no chão de terra do canteiro de plantas que fica atrás da guarita. Enquanto isso, o tempo passa e é do Gersiley que vem a voz do bom-senso. "Acho que essa moça não vem mais não, Paulo". Mais de vinte minutos de atraso e eu me negava a aceitar o óbvio. E os assuntos dele não acabavam nunca. Logo depois ele entrou na crônica policial (comentou os acidentes recentes, inclusive um Mitsubishi que tinha subido no canteiro da Higienópolis, o dono tava chapado), e passou daí pro caderno de política. Porque você veja bem, a quantidade de políticos que tem nessa país. É só você calcular quantos deputados que desviam dinheiro no governo. Aí passa pras cidades e tem os vereadores. Vixe. Olha só Londrina (em cima do balcão tinha um folheto da campanha para diminuir o número de vereadores na cidade) que tem 25, né?, vereadores e devia ter só dez.

Quando ele começou a falar que lugar bom pra ganhar dinheiro mesmo era Rondônia, e que o único problema eram os bandidos que iam pra lá fugidos, eu vi, por um espelho da guarita, um rabo peludo se mexendo no canteiro. "O gato", foi só o que eu disse. E fui atrás do filhote de pomba. A gente procurou, procurou, mas não tinha sinal mais nem do gato. Só umas penas no chão.

Isso que dá tentar ajudar. Se eu tivesse deixado o passarinho ali no chão, em frente o elevador, ele podia ainda estar vivo. Ah, se ela tivesse chegado no horário eu não teria tido tempo de encontrar o passarinho. Pois é, tudo culpa dela. E acabei mesmo indo sozinho.

(N. R.)*pra quem chegou até aqui, primeiro parabéns pela paciência e obstinação (ou esperteza). Segundo, uma explicação sobre o título do texto. É um trocadilho meio infame e obscuro. O "senso" ali, na expressão "senso comum", devia ser com "s". Mas ficou com "c", como um jogo de palavras relacionado ao levantamento que o Barney fez, constantando que em frente à guarita dele passam mais mulheres do que homens. Nesse caso, um "censo" com "c", como o do IBGE. Enfim.