De médico e de monstro...
Quando o homem quer saber como pensam as mulheres, ele pode ler revistas femininas, livros e assistir ao GNT. Quem tem paciência até tira alguma coisa de verdade dessas fontes. Não que isso sirva pra melhorar a relação entre os sexos, mas enfim. Já as mulheres não têm essa possibilidade. Ler a "Playboy" ou assistir à ESPN Brasil não vai dar a elas pistas de como funciona a cabeça de macho. Ela pode até formar alguma opinião sobre o assunto, mas nunca vai sentir, na essência, a importância de saber se o Robinho é mesmo um craque ou apenas um bom jogador.
Vou dar uma mão às mulheres e desvendar um pouco do mistério do mundo masculino. A metodologia utilizada foi a auto-entrevista (me perguntei sobre a minha própria opinião) e a coleta de opiniões em volta da garrafa de cerveja. Se para os homens, como muita gente diz, é um mistério a ida das mulheres ao banheiro pra conversar sabe-se lá sobre o quê, para elas o mistério deve ser o que rola numa conversa de bar nas mesas onde só sentam os homens. Claro que o conteúdo dessas conversas não vai ser revelado. Só vou fazer algumas considerações genéricas. Mas tenho certeza que as conclusões vão dar alguma luz sobre a eterna insatisfação dos homens.
Sim, porque muitas dizem que "eles nunca estão satisfeitos". Em termos é até verdade. Mas essa insatisfação não é capricho nem volubilidade, não. Faz parte do sofrimento do homem, que tem a alma fendida em dois.
O que os homens querem? Falando por mim e pelo que escuto dos outros, acho que dá pra resumir isso em dois termos aparentemente paradoxais: paz e intensidade. Se fizer uma enquete no Calçadão com homens de diversas idades, raças, credos e situações financeiras as respostas podem variar, mas não muito: Daniela Cicarelli, ter um milhão de dólares, Luana Piovani, ver o Corinthians conseguir algum título internacional importante, comprar uma Ferrari, surfar no Havaí, rodar a América do Sul de jipe, assistir um show dos Rolling Stones perto do palco e ser chamado pelo Mick Jagger pra dividir os vocais de “Let Spend the Night Toghether”, tirar quatro meses de férias por ano. Mas tudo isso e outros sonhos masculinos clichês se resumem nas duas palavras: paz e intensidade. Por serem algo excludentes, às vezes fica difícil de satisfazer a ambos os anseios.
A literatura, sempre ela, já percebeu essa dualidade e consagrou personagens que mostram bem como o íntimo masculino vive o conflito quase esquizofrênico. O que são Dom Quixote e Sancho Pança senão as duas faces, a aventureira e a acomodada, de um homem? A aventureira é imatura, impetuosa, emocional e inconseqüente. A acomodada é velha, barriguda, racional e centrada. Centrada em termos, aliás. Porque "realista" pode muitas vezes ser eufemismo pra covarde. Existe um livro de um autor francês, cujo nome não importa muito, chamado "Tartarin de Tarascon". Fala exatamente disso, de um francês meridional (do sul), barrigudo e já entrado em anos, que se divide em Tartarin-Quixote e Tartarin-Sancho. O primeiro quer partir pra África caçar leões e guerrear com mouros. O segundo, mais convincente, prefere continuar a vida pacata de quase-celebridade da pequena Tarascon. Tartarin é um aventureiro de mentira que inventa estórias de bravura para os outros, nas quais ele mesmo acaba acreditando. E está sempre a dizer que vai partir pra África, que vai partir pra África... mas nunca parte. Vira motivo de piada. Até que um dia ele parte. O livro é divertido.
Outro exemplo clássico, um pouco mais pesado, é o do médico e o monstro. Se Dom Quixote é o arquétipo do homem solteiro, Dr. Jekyll é o do casado. O cavaleiro espanhol é um solteirão sem rumo, assim como seu alter-ego Sancho é um solteirão que quer vida mansa. Tartarin também não era casado. Não sei se o médico de Stevenson era casado, mas personifica bem o cara com esposa e filhos. O provedor responsável, o pai de família cumpridor da ordem. Praticamente assexuado. O monstro, Mr. Hide, são os impulsos internos - liberados com mais força por estarem reprimidos. O caso dele é um tanto patológico, é verdade, mas serve pra mostrar que o mais tranqüilo e pacato dos homens tem um lado intempestivo, agressivo. Ninguém é só Dr. Jekyll ou só Sancho Pança.
Conseguir conciliar esses dois anseios é difícil, mas é o que todos buscam. É importante satisfazer os dois lados, sob o risco de uma conseqüente frustração. Acredito que há sujeitos que realmente querem muito casar, ter casa, carro e TV a cabo (embora não entenda perfeitamente). É Sancho Pança falando. Legítimo. Mas Mr. Hide começa a ficar impaciente naquele domingo à tarde assistindo pela terceira vez ao mesmo documentário sobre a migração do gnu africano. As unhas do esposo ficam maiores e verdes, saem pêlos das orelhas, os caninos se aguçam e o faro fica mais apurado. Só a barriga não diminui. O monstro levanta, pega a chave do carro e diz entredentes: "vou dar uma volta". Normalmente ele roda o bairro durante uns vinte minutos e volta pra casa. Senta de novo na poltrona com um pouco de ar puro no pulmão mas um pouco mais frustrado.
Viver a vida 24 horas por dia na balada também não é o ideal. Pelo menos não pra vida toda. Esse lance "100% Mr. Hide" (boa idéia pruma camiseta, hein?) é difícil. Primeiro porque raros são os corpos que agüentam o pique ininterrupto e por vários anos. Só mutantes como o Keith Richards ficam vivos e de pé morando na esbórnia até depois dos 60 - mas mesmo o Keith Richards casou, não é? Segundo porque um sujeito tem que ter momentos de paz (externa e interna). Um documentário ou outro sobre gnus, numa terça-feira à noite, até vale. Pizza, cama (usada pra descansar), piscina (pra boiar), rede, livros, TV, cinema: tudo isso atrai o homem, do mesmo jeito que sexo, drogas, rock’n roll, velocidade, violência, política e futebol (que é mais ou menos uma mistura dos três itens anteriores, por isso é tão interessante).
Mas na maioria das vezes, com o tempo e com a idade, Sancho Pança ganha a briga e traz seu abdômen avantajado pra morar na barriga dos homens pacatos. Os vinte ou trinta quilos a mais, ganhos na frente da TV, esmagam Dom Quixote. Mas lá no fundo, mesmo que sufocado, Quixote brada por liberdade e aventuras - e sua voz tem peso.
Durante toda a vida, como em Tartarin, as duas faces, o cara e o coroa, brigam pra fazer prevalecer sua personalidade. Outro paradoxo é que muitas mulheres dizem gostar do Dr. Jekyll e procurar suas qualidades em um homem, mas na verdade parecem curtir e admirar mais o Mr. Hide.
Enfim, um problema sem solução. Aliás, nem sei se é um problema de verdade. Se fosse fácil não ia ser tão interessante.
posted by 13 at 11:29 p.m.
Elucubrações na madrugada
Nessa hora da madrugada eu devia (escrever alguma coisa bonita). Mas falta a inspiração, nada não é bonito não. Também não é feio. O nome já diz tudo, nada. Não dá pra dizer que nada é belo, nada é horrível, nada é bom. Se os adjetivos fossem adesivos de papel, iguais aqueles de campanha política, redondinhos (que o cabo eleitoral prega na sua camiseta), esses adesivos não iam grudar em nada. Pensa na cena, nada passa andando pela João Cândido, ao meio-dia e treze, ali na altura da esquina do Jota, onde tem uma pizzaria (foi o primeiro lugar que me veio na cabeça). O cabo eleitoral, aliás a cabo eleitoral (porque eles preferem garotas, mais simpáticas e tal), tá parada em frente a esquina da CMTU. Na verdade são duas, uma delas segura um pirulito (aquele cartaz com a foto do candidato) e a outra tá distribuindo panfleto e colando os adesivos redondinhos. E nada atravessa a rua na faixa, pegando a JK pra subir sentido Cemitério. Nada passa em frente às moças, ela tenta colar o adesivo, mas o adesivo cai na calçada, com a parte da cola virada pra baixo. Vai ficar um tempo ali, porque dá trabalho desgrudar depois que cola. Nada segue seu caminho. Anticlímax total, mas não vou apagar não. Deixa aí. Nada, vazio, nihil. Ninguém está aqui comigo hoje, mas esse é um outro problema (e uma outra estória).
xxx
Elucubrações na madrugada. Acho que, pra mim, existem poucas palavras cujo som soe mais obsceno do que "elucubração". No plural, então, fica ainda mais pesado, "elucubrações". Porque além de tudo dá idéia de promiscuidade. E não é só por causa do meio, não. Junta um monte de coisa numa palavra só. Se for ver bem, dentro de "elucubrações" tem vários outros termos pornográfico. Alguns estão meio escondidos, mas com alguma paciência e uma mente razoavelmente predisposta (poluída?) dá pra tirar uma porção deles. Lembra daquele jogo que tinha nas revistinhas de palavra cruzada (passatempo)? Um quadrado de sete linhas por sete colunas, mais ou menos, preenchido com letras (49 no caso). E a pessoa tinha que formar palavras ligando as letras em qualquer direção. É mais ou menos assim. Só que no caso da "elucubração" tem que ter um pouco mais de criatividade e imaginação.
posted by 13 at 2:55 a.m.