Letras escatológicas
Eu releio várias vezes os textos que eu escrevo. Não é narcisismo, não. Deve ser mais uma espécie de obsessão detalhista (ou seria uma mania?). E é normal ficar curioso sobre o que sai de dentro da gente, não é? Um professor do meu terceiro colegial costumava dizer (numa daquelas gracinhas de professor de colegial) que todo mundo que vai ao banheiro gosta de olhar o produto (as japonezinhas da fileira da frente riam de boca fechada e olhos baixos). Mas essa mania de conferir o tal produto teria uma razão, acho. Uma explicação remota, ancestral.
Esse negócio de dejetos é muito importante pra bicho selvagem; tem aquela coisa de marcar território, soltar feromônio. E tem também o diagnóstico: porque pelo aspecto, pela coloração ou pelo odor da coisa (ou do líqüido) dá pra saber se algo vai errado nas entranhas. Se tem doença, falando um pouco mais claro: pra ficar num exemplo mais ameno, pessoas com hepatite fazem um xixi mais escuro (é isso?). E resquícios dessa habilidade clínica pré-histórica devem ter sobrado na nossa cabeça civilizada. Por isso as pessoas continuam, como diria o professor Agnaldo, conferindo o produto - se pá, né?
Voltando ao texto, que não deixa de ser um excremento - porque é alguma coisa que a gente expele do mais profundo, quando uma parte nossa está cheia. Tem gente que diz que um texto é como um filho (que também sai de dentro da pessoa, se ela for mulher). Mas acho que tá mais pra dejeto. Muito escritor conta que escreve porque precisa. E tem verdade nisso. Chega uma hora em que há tanta informação e impressão guardadas que precisa colocar pra fora o excesso (por isso o computador é só uma privada em que dá pra jogar Age of Empires e baixar mp3).
E depois de despejado o texto-dejeto, a gente (eu pelo menos) dá uma conferida pra ver qual o estado, não do intestino ou da bexiga, mas daquilo que os escritores chamam de "íntimo", os poetas de "alma" e eu não chamo de nada porque já deu pra entender. Um texto diz muito sobre esse estado, porque só depois de escrever (e reler o que eu escrevi) é que eu fico sabendo realmente como eu penso sobre algumas coisas. Mas o resultado não me incomoda, não. Tenho um prazer mórbido (às vezes masoquista?) de reler tudo, mesmo que seja uma merda. Como este texto aqui, nos dois sentidos.
posted by 13 at 11:06 p.m.