Carta Testamento
Texto apócrifo encontrado jogado numa esquina qualquer de uma madrugada comum (ou vice-versa) da cidade de ***
"Dos dezenove aos trinta e oito anos procurei um amor verdadeiro. Que fosse puro e sincero. Em 83 eu comprei um na
25 de Março que parecia legítimo. Mas dois dias depois ele parou de funcionar. Não vi que era 220. Queimou. Em 91, com as importações liberadas, pedi pra minha tia me trazer um de Nova Iorque - que não fosse muito caro. Mas ela se enganou e me trouxe uma caixa de M&Ms (que na época era muito difícil de achar por aqui). Procurei também na rua e em clubes de solteiros, com esperança de que alguém esquecesse algum amor verdadeiro em cima do banco. Mas nunca fui muito bom em achar coisas, acabei não encontrando. Desisti do amor e comprei pelo correio uma daquelas iguanas. Bonita, verde, brilhante.
A partir dos quarenta comecei minha busca pela Felicidade. Frequentei 23 religiões e cheguei a pagar dízimo pra sete igrejas ao mesmo tempo. Minha iguana me deixou quando dei o nosso carro para aquele pastor com jeito de segurança de boate. Pouco tempo depois comecei o "Consórcio da Felicidade", de 60 prestações e dois lances por mês. Mas quando fui demitido a coisa apertou, e tive que vender o consórcio pro seu Antônio do 203 - que ia tirar a felicidade no final do ano passado, mas morreu. Cheguei a procurar o mercado negro: ofereci a minha saúde e a minha família em troca da felicidade mais duzentão em "cash", mas o negócio melou porque a boca do traficante caiu um dia antes - meu nome tava na caderneta do sujeito, toda semana eu recebo telefonemas intimidadores me avisando pra abrir o olho.
De manhã, ao levantar, eu sempre me perguntava: "afinal, onde está a felicidade?" Quando conheci a Internet achei que a minha procura tinha terminado. Fiquei satisfeito durante quase três anos, toda noite eu acessava a felicidade. Até que um dia o meu filho adolescente me contou que aquilo que eu via na tela também não era felicidade. Se chamava "zoofilia". As olheiras ainda estão fundas - mas estava me recuperando. "Estava" porque há umas três semanas fui ao médico e ele me disse que meu fígado está inchado, com o triplo do tamanho natural. E que eu não tenho nem seis meses de vida. Fiquei contente, porque enfim descobri onde ela está. Achei! Nunca tinha levado muito a sério o que as pessoas diziam, mas agora sei que a felicidade está dentro de mim mesmo (no caso, dentro do fígado). E crescendo".
posted by 13 at 4:11 p.m.