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sábado, dezembro 20, 2003
 
O suspeito da rua Sergipe
Sou, sim, meio paranóico (e olha que eu nem cheiro, hein?) Sempre que acontece algum problema, e estou por perto, eu acho que vão me acusar ou pelo menos suspeitar de mim. Ontem à noite, por exemplo, eu fui no camelódromo (aliás, como aquele lugar tem ficado cheio, hein?) comprar uma fita de vídeo pro trabalho estranho do Shoni. Quando eu tava saindo, chegando até a porta, o alto falante interno: "ATENÇÃO, ASSOCIADOS!", já fiquei meio cabreiro e curioso. Primeiro pra saber quem são os "associados" (depois descobri que eram os camelôs). E, claro, pra escutar o que vinha na mensagem. "ATENÇÃO, SENHORES ASSOCIADOS!", continuou a voz radiofônica, "HÁ UMA PESSOA NO CAMELÓDROMO...", fiquei também preocupado. Assaltante, terrorista, maníaco, estuprador, autoridade? O que seria tão sério pra ser anunciado no sistema de som? Dependendo do que fosse, no meio daquele monte de gente podia rolar um tumulto. Correria, gente se empurrando, crianças pisoteadas, saques. Enfim, bom ficar esperto. "...UMA PESSOA NO CAMELÓDROMO PASSANDO NOTAS FALSAS". Daí passou pra excitação. Pensar que uma daquelas cabeças populares podia ser um estelionatário, agindo exatamente naquele momento, com pelo menos umas vinte ou trinta pessoas iradas a fim de colocar a mão nele. E podia rolar polícia. Coisa de filme. Daí a voz reforçou: "HÁ UMA PESSOA PASSANDO NOTAS FALSAS DE 50 REAIS NAS LOJAS!" Como será que perceberam a falsificação?, imaginei na hora. E continuei andando em direção à porta. Mas daí rolou: a sensação incômoda de estar sendo observado, vigiado. Porque o malandro dos 50 reais, naquela hora, podia fazer exatamente o que eu estava fazendo: ir embora, fugir. Minha atitude era altamente suspeita. Um criminoso descoberto deixando o local do crime. Me controlei pra andar devagar, o menos afobado possível, os passos contados e sem olhar pra trás - tudo pra não chamar suspeitas. Já eram quase nove da noite, uma noite meio abafada. Segui em direção ao carro, estacionado na rua de baixo. Não me segurei e dei uma olhada pra trás. Um negão de bigode, bermuda branca e camisa azul claro sem manga estava saindo do camelódromo na minha direção. "Segurança?", cogitei comigo. Paisana, quem sabe. Fui em frente e o cara parou na esquina. Segurava um pacote, talvez presente pros filhos. Entrei no carro, dei partida rápido e acelerei - pra fugir do flanelinha, que já vinha, lá de cima, pra cobrar o "bem cuidado aí, certo?!"

quarta-feira, dezembro 17, 2003
 
À uma
Se disseste a quem de lado ouviste,
a verter do rosto a reza triste,
quisera ouvir (de pau em riste),
ao som da bela, à voz de piche.

Cansado e quente o catre sua,
recende a olor de vaca nua,
gemer de falo antes das duas
e ter no dente a flor mais crua.

Morrer de novo às duas horas,
sorver da noite a estrela fria,
increr em ti quando me imploras
a engulhar-te toda à pia.

Ao menos minha, tal poção,
não abrigaste no mais fundo;
retive-a, creia, por querer,
ciente estava do teu mundo
- vasto mundo!

Morar ontem nos teus muros,
busquei senso nas escritas:
dizem tudo, nada contam, como tu e tuas bocas:
tudo sorvem, nada cantam.