Não é nenhum fim do mundo
A sensação começou em algum lugar da Europa Oriental, tipo a República Tcheca ou a Hungria. Um desses países melancólicos. No princípio achou-se que era um fenômeno local, depressão pós-comunismo, coisa de crise de identidade. Mas, com os meses passando, a coisa foi se alastrando - primeiro na outra metade do continente, e logo atingia todo o Primeiro Mundo. "Crise da pós-modernidade", disseram alguns, o conforto e a vida de rico desses lugares leva a esse niilismo, teorizava-se. Pois então: em pouco mais de dois anos o mundo inteiro, praticamente todas as 6 bilhões de pessoas, entrou na tal "crise existencial", que ninguém conseguia descobrir como surgiu. "Nada mais vale a pena, viver não tem mais sentido. O vazio, o vazio...". Essa frase era dita em mais de 200 línguas, fora os milhares de dialetos. O Fim da História, literalmente. A humanidade perdeu o seu elã. Discussões pouco entusiasmadas em vários fóruns internacionais acabaram decidindo pelo suicídio coletivo, a solução final, a destruição do planeta. Não importava muito como, mas o modo tinha que ser decidido. Preguiça, mas vamos lá. Distribuição de pílulas de veneno para todas as pessoas? Matadouros industriais em cada grande cidade? "Não!", uma voz se levantou. "Acho que a gente não pode fugir do clichê. Afinal, ficamos décadas com medo do holocausto atômico e acho que, no fundo, era um desejo escondido da gente que a catástrofe acontecesse de verdade. Eu desejava, no fundo, sofrer o pesadelo nuclear. Fora que é uma onda retrô, autos climas anos 80, quando ainda tinha URSS x EUA". "Demorô", concordaram em coro. Morte apoteótica! Agora só faltava entrar em consenso, porque, enquanto não houvesse unanimidade, não era justo acabar com tudo. Foi feito o plebiscito, de praxe, pra consultar todos os habitantes da Terra. E uma pessoa só não concordou com o fim. "De jeito nenhum!
Aqui que eu vou morrer antes de conseguir!", era o Aderval. Religiosamente no Valentino, de terça a domingo, dando em cima da Claudinha (que também batia ponto). Mas nunca tinha chegado mais longe do que um beijinho, num dia em que ela estava especialmente bêbada. O amigo, Claudinei, comentando ali na varanda do bar prum outro colega sorumbático: "Pode esquecer, essa ele não come mesmo". E a humanidade sobreviveu, sofrendo.
posted by 13 at 10:56 a.m.