CARNÓPOLIS 2004!, já ouvi dizer que o Otávio Mesquita vai baixar por lá depois do Rio e antes de Salvador. Link ao vivo na Bandfolia. Vai ter baixaria? Lembro que quando eu tava saindo da infância, no carnaval a então Bandeirantes passava de madrugada uns bailes boca quente. Vermelho-e-Preto, Scala. Era a única época do ano que a TV mostrava baixaria da pura. Eu ficava assistindo e lembro do Chico Recarey, um espanhol já entrado em anos, que falava com uma voz de operado de garganta, e era o rei da noite, empresário, dono dos clubes. Não tinha baile sem que entrevistassem o Chico Recarey. E em entrevista ao vivo em baile de carnaval - isso já é folclórico - a mulata não escuta a pergunta nem o repórter escuta a resposta. Microfone estendido (barulho) "Tá gostando da festa?" (barulho) "Hein?" (música muito alta) "...a festa" (barulho) "Ah-hã..." (barulho, repórter gritando) "Você é daqui do Rio?" "hein?" (barulho, chega a boca mais perto do ouvido e grita mais alto) "VOCÊ É DAQUI DO RIO?" (ela começa a sambar, mas a boca fica perto do microfone) "Não, não, sou do Sul" "E você faz o quê por lá?” "hein?" "E VOCÊ FAZ O QUÊ?" (ela continua dançando enquanto responde) "Sou promoter". Depois de mais umas perguntas, ele chama outro link e o link não entra. Daí entra a panorâmica do salão, aquele monte de gente suando e se abanando com leque da Brahma. Mais uns quinze segundos e entra a vinheta do carnaval, que sempre começa com uma batucada ou com um tamborim solitário. Na tela, uma cascata de confete feita por computador. Comercial: cerveja/praia/mulher, locutor engraçadinho “e aí, cara?: aquele calor, aquelas me-ni-ni-nhas! Vai ficar olhando, ô panaca?” ("aprecie com moderação"); ESTOMAZIL, contra azia e má-digestão, ES-TO-MA-ZIL. Off: "Dolores decide contar a verdade a Maria de las Graças": (Dolores, voz dublada): estou grávida! Irrompe trilha sonora tensa. Solta música tema da novela. ..."amanhã, na Band". Vinheta da emissora. Vinheta do Carnaval. Som de frevo ao vivo, repórter Maria Núbia aparece na rua, no meio de uma pequena multidão. É começo da madrugada e cai uma garoa fina. O clima é de interior. Atrás da repórter, uma porção de moleques sem camisa fica pulando e fazendo caretas: "Aqui a festa não pára [gritaria dos moleques, segue o frevo, cuja procedência não dá pra identificar na tela]. Os foliões estão pulando na avenida principal desde ontem à noite e ninguém parece que vai ficar cansado". Passa um "trenzinho" em frente à repórter. O último da fila veste uma calça jeans rasgada e canta uma letra suja de funk. A repórter continua falando e, de repente, um rapaz desavisado, de camiseta e bermuda preta, entra trotando no enquadramento da câmera. Ele segura uma latinha de cerveja e grita "Aê, mulherada!" Quando percebe a câmera, já é tarde. A repórter: "Tá curtindo a festa?" (frevo) O rapaz nem escutou a pergunta. Só grita no microfone "AÊEEE!" A repórter tenta de novo: "Tá gostando da festa?" Daí ele percebe que ela perguntou alguma coisa, mas ainda não sabe o quê? No rosto dele surge um olhar meio diabólico e meio malicioso, não só por causa dos olhos vermelhos. Algo como se ele tivesse imaginado que a repórter tava tentando puxar papo com segundas intenções. Como se ele pensasse: ela tá a fim. "E aí?", ele pergunta pra ela, e coloca o braço esquerdo sobre o ombro dela. Ela tenta mais uma vez, com paciência e mais alto "Tá gos-tando do CAR-NA-VAL daqui?". Ele (entre malicioso e amigo): "Tô, tô sim. Como não? E você, ãh?, tá curtindo uma festinha?" Ela: "Você é daqui mesmo?" Ele não escuta, fica olhando pra câmera e rindo um sorriso flácido, ainda com o braço sobre o ombro dela. Ela grita: "Você é daqui mesmo?". (frevo, etc) Ele, virando pra ela: "Oi?". "VOCÊ É DAQUI MESMO?" Ele: "Na verdade... não! Eu sou de (...) E você, é daqui mesmo?" Corta pro repórter Antônio Pedro, o frevo é o mesmo. "Pois é. E por aqui parece que teve um pessoal que já passou da conta". A câmera fecha num rapaz estirado na calçada, abraçado com uma garrafa de Jamel. Da boca dele escorre um fio de baba e tem vômito espalhado pelo chão. Um outro sujeito, em condições não muito melhores, tenta “reanimar” o enfermo. Mas o que passa mal começa a dizer nomes feios. Antônio Pedro: “O seu amigo ta meio mal, hein? Abusou da cerveja?”, diz ao “enfermeiro”. O que passa mal começa a dirigir impropérios ao repórter: “Quem é você? Você não gosta de mim? Vai tomar no seu cu!” O repórter sai de perto. E o Otávio Mesquita prometeu que vinha.
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