Branco no preto
1.
Imagina a cena. Isso era lá pela meia-noite. Cinco pessoas suspeitas (umas mais, outras menos) dentro de um fusca parado numa estrada de terra erma, no meio do nada. Tinham vindo da cidade pela rodovia até decidirem entrar no caminho. Rodaram mais uns dez ou quinze metros levantando poeira e pararam. É a primeira vez que o motorista dirige o fusca, a ré e na primeira estão arranhando pra entrar. E se o carro enguiça ou atola no meio do nada? Desligaram o farol e acenderam a luz de dentro do automóvel. No meio da escuridão, é a única claridade. Os cinco (quatro caras e uma moça) meio apertados nos bancos do Volksvagen branco estão espertos pra qualquer barulho. Só os barulhos da noite. Cada farol de carro que passa na estrada ali perto dá a impressão de que vai entrar pela mesma estrada de terra em que eles estão. Cinco minutos de indecisão, até que um dos caras se debruça sobre a superfície aberta do porta-luvas e começa o artesanato. Outro é o mais preocupado, se assusta com os faróis que cruzam rápido a via e chega a ter a ilusão de que um carro avança na direção deles. Enquanto isso o encarregado trabalha com esmero - nessa horas ele vira sujeito sério, é dono da situação. Um terceiro tem uns poucos minutos, talvez segundos, pra decidir afinal se sim ou se não. Mas ele já tinha resolvido, no fundo já tinha resolvido. Não tinha dúvida nem volta. Meio claustrofóbicos meio ansiosos o preocupado e o iniciante saltam do carro e esperam, olhando pro pretume da noite. O céu azul muito escuro quase se confunde com o preto do pasto. O chão embaixo do pé é cinza, por causa da luz que escapa de dentro do Volks. Pronto, avisam de dentro. Então é só pegar os vinte reais. A primeira vez a gente não sente muito mesmo, me diziam na volta pra cidade, enquanto eu dirigia e sentia, pela primeira vez, meus dentes da frente ficarem entorpecidos e um catarro amargo descer do meu nariz para a entrada da garganta. A primeira vez, como a de muita gente, foi num fusca branco, no meio do nada. Tava escuro mesmo, e naquela noite eu fui dormir antes do dia amanhecer.
2.
Tempo de criança. Dar cambalhota dentro da piscina. Quando a gente tá de ponta cabeça dentro d'água a água entra pelo nosso nariz. Associei depois as duas sensações, o gosto que fica na boca é mais ou menos o mesmo. Outra coisa que me lembrou foi aquele gel anestésico que o dentista esfrega na nossa gengiva antes de aplicar a anestesia de verdade. O cheiro é mineral, tipo calcáreo, pedra. Da primeira vez o único efeito foi passar um pouco do sono, que voltou logo mais, às três da manhã. Mas pula um dia e vai pra segunda-feira de carnaval. Duas vezes na mesma tarde, e nada de bater com força. Não sei bem o que eu esperava, talvez alguma coisa mais cinematográfica? Acho que não. Que corta o sono na hora isso corta. Também cortou um mal-estar que começava a me incomodar. O enjôo passou num instante. Mas, fora isso, que mais? "Paraíso na terra", foi a expressão que alguém mais experimentado tinha usado sobre a sensação provocada. Não alcancei. Eu paro um pouco pra pensar nessas questões agora, aqui, em cima do telhado da casa do... Um pulo do chão pra árvore, outro da árvore pro muro. Correr pelo muro estreito e, com outro pulo, alcançar a laje. Pronto, fácil, só um ou outro arranhão. Mas quem liga? Meu corpo só vai doer do esfoço desse alpinismo na quarta-feira. No telhado oposto eu vejo o Fernando. Agora pular da laje no chão e escalar o teto do outro lado do quintal, olhar lá de cima e ter vontade de pular. Me balançar no beiral, só sustentado pelas mãos (nem era tão alto assim) e, num salto, passar por cima da rede e cair no chão firme. Que coisa.
posted by 13 at 3:13 a.m.