Biocombustível
Eu fico preocupado (pouco preocupado, na verdade). O corpo humano não é como o gol cinza que a gente tinha em 87. Nosso gol era movido a álcool. O ser humano
não é movido a álcool, é importante que vocês entendam isso. Então deixa eu explicar melhor. É verdade que o ser humano é um animal (às vezes selvagem, como ontem à noite), um animal onívoro, que come de tudo. Mas o estômago do ser humano
não foi (percebam: eu disse
não foi) projetado para receber um litro de álcool etílico por noite. Pra ficar mais fácil eu vou ilustrar:
Isso é um tanque de carro (foi projetado para receber litros de álcool)
E isso é um estômago (não foi projetado para receber litros de álcool)
Apesar da semelhança, existem pequenas diferenças cruciais. Carros, por exemplo, não falam demais nem dão vexame depois que você abastece. Tá dando pra pegar a essência? Além do estômago, tem outro coisa dentro do corpo do ser humano que também é afetada por noites de recepção a calouros. Chama-se fí-ga-do. O meu não tem reclamado ainda.
Três fígados
Mãe é uma pessoa que diz que você bebe demais, porque hoje você é novo, mas vai ver o seu fígado quando você tiver cinqüenta anos.
Eu tenho certeza que ontem de madrugada eu entrei em casa com uma garrafa de Vodka ainda com um restinho. Mas eu não tenho idéia de onde ela tá. Sumiu, simplesmente.
posted by 13 at 6:12 p.m.
Pathos
Não é preconceito, mas namorar gente com outra criação é difícil. Valores diferentes, cultura diferente. Esse é o principal problema. Namorar com alguém que tem cultura diferente é foda. Uma vez eu tive um começo de relacionamento com uma grega, chamava Penélope. Não como a outra Penélope, porque a Penélope que eu conheci nem sabia cerzir uma meia (como se atualmente meias ainda fossem cerzidas). Essa falta de prendas dela era atraente. E era uma mulher bonita, beleza clássica, rosto anguloso e pele mediterrânea. Mais velha do que eu uns cinco anos. Não deu certo, apesar de tudo. Muito complicada. Ela vinha de outro relacionamento com um grego. Não chegaram a casar, ela me contava que ele era muito "poderoso" e galinha, dormia com uma mulher diferente a cada noite. Seduziu a Penélope, que ficou grávida dele. Vi uma foto do cara, barbudo e cabeludo, não passava a imagem de empresário rico. Lembraria mais um hippie, se não fosse tão forte. Zeus, acho que era esse o nome dele. A Penélope ainda tinha verdadeira veneração por ele, mesmo depois do cara ter sacaneado com ela. Perferozinho, o filho, era grande pra idade quando eu o conheci. Com sete anos já tinha quase três metros, duas cabeças e um olho só em cada uma. Eu saía da faculdade toda noite e dava uma passada na Penélope. Mas antes eu sempre tinha que passar numa pitonisa ali na Quintino pra ela me emprestar o elmo de Ares e o velocino de Apolo, que era pra me protejer do Perferozinho, pra ele não me estraçalhar quando entrasse na sala. Enfim, a Penélope era uma mulher aparentemente feliz, apesar de, embaixo do seu sorriso constante, eu notar sempre um fundo de melancolia. Eu realmente gostei dela, mas era difícil. Além do antigo caso mal resolvido, a Penépole era daquelas mulheres que sempre estavam exigindo provas de afeto. Com menos de um mês de relacionamento ela queria que eu matasse o Leão da Neméia, que vinha semeando o pânico entre os agricultores de Tamarana, e lhe trouxesse a pele do leão (que era impermeável). Eu dei uma desculpa qualquer, dizendo que eu já tinha combinado de sair com o pessoal no domingo. Mas na verdade eu achava cedo pra esse tipo de coisa. Com menos de três meses a situação já estava bem desgastada. Piorou tudo quando o Zeus voltou a procurar a Penélope. Ele aparecia de repente, a qualquer hora, sem avisar. Aí era um saco, porque o dia virava noite, o céu se cobria de nuvens, a terra tremia. E a TV normalmente saía do ar. Aquilo tudo já tava me cansando. Foi quando eu conheci a família dela. A mãe, dona Górgona, tinha, em sociedade com as duas tias da Penélope, um restaurante de carne humana (tinham acabado de encomendar uma frigideira industrial, pra fritar mais gente ao mesmo tempo). Eu nem me incomodava muito com as cobras na cabeça da mulher, mas o insuportável era aquele olharzinho petrificante que ela me lançava de vez em quando. Dava pra ver que ela não gostava de mim. E o irmão dela, o Narciso, era um chato, prepotente. Ninguém gostava dele na cidade. Enfim, não dava. Naquela noite eu fui até lá decidido a conversar sério com ela. Esqueci de passar na pitonisa e o Perferozinho arrancou meu braço direito, na altura do cotovelo. "Não foi nada, não foi nada, tudo bem", eu disse pra ela, "coisa de criança". Enquanto eu me esvaía em sangue a gente falou sobre a relação, expliquei pra Penélope que precisava de um tempo pra pensar. A gente nunca mais se falou. No fundo, hoje eu percebo, o que mais me incomodava era ser comparado com o ex dela. Não me sentia confortável com isso.
posted by 13 at 6:27 p.m.