prolixidade

blogs para coment?rios longos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?
segunda-feira, maio 10, 2004
 
Vida curta vida
E se a gente tivesse data de validade. Cada um nascia com a data da morte pré-determinada. Algo assim como fab. 07/74 - val. 07/15 impresso em um dos lados da bunda. Os que acreditam no destino, nos astros, pensam um pouco assim (só que pra eles, em vez das nádegas, o prazo está escrito nas estrelas). Como eu não acredito, não. Dizem que o corpo humano foi feito pra durar, no máximo, 130 ou 140 anos - quando bem conservado e nascido sob condições ideais. Fico imanginando: chegar aos 60, já considerada terceira idade, e ter ainda mais 60 anos de vida. Tem gente que acha tempo demais. Pode ser. Mas se tem alguma coisa que me atrai nessa longevidade é a possibilidade de ser testemunha do que vai acontecer nas próximas décadas. Pelo andar das novidades, muita coisa interessante deve pintar por aí, na bioquímica, na computação, nas viagens espaciais, na arqueologia, na genética (se bem que essa área me assusta um pouco). Chutando alto, quem sabe a gente possa voar (sem aparelhos), ser o que e quem a gente quiser pelo tempo que a gente quiser (realidades virtuais-reais), ou mesmo se tornar imortal. Como o prazo de validade da vodka: indeterminado.

Mas voltando ao hoje, outra dúvida que me ocorre tem a ver um pouco com tudo isso mas é bem menos "viajada" e bem menos etérea. Penso se tem gente que nasceu pra viver só vinte, só trinta, só quarenta anos. Sem o lance do destino, sem pré-determinações. Digo pessoas que aproveitam tudo o que se poderia até uma certa idade e decidem que está bom, que chega. Não vou falar dos suicidas depressivos ou desesperados porque seria outra discussão imensa e, além do mais, neles rola, muitas vezes, uma coisa química, patológica. É de quem aproveita a vida como na velha história da laranja chupada até não sobrar nenhum suco no bagaço que eu estou falando.

Pode parecer perigoso ou leviano dizer assim, mas falo também em alguma coisa como uma "morte estética". Quem encara uma vida como uma obra de arte pode pensar em terminar essa obra no tempo certo. Alguns romances são geniais com 500, com mil páginas (como Ulisses) e outros são geniais com 150. Se tivessem 300 páginas, as 150 a mais poderiam se arrastar sem nada acrescentar. Encerrar a carreira no auge. "Isto posto, disse o depoente que nada mais tinha a acrescentar". "Coitado, morreu tão jovem...". "Imagina o que ele não teria feito se vivesse mais trinta anos...". Talvez nada que valesse a pena.

Mesmo se não se encarar assim, falando de modo mais prosaico, pode surgir em alguém a consciência de que viveu o que tinha pra viver, aproveitou tudo e de tudo e agora chega. Não precisa ser suicídio, mas um simples descuido, como o de Tchaikovsky ao beber água não fervida, ou de tantos que insistem em dirigir à toda com meia garrafa de vodka na cuca.

Beber demais, se drogar demais. Quem faz isso, mesmo de quem se diz que é inconsequência juvenil, sabe (no fundo sabe) que se continuar abusando vai estar cortando meses de saúde (ou de vida) lá na frente. Mesmo assim, a opção é feita. Aproveitar, viver, e morrer antes. O arrependimento pode vir, claro, quando aparecer o câncer, a cirrose ou a bala. Mas é um preço que hoje parece tão barato.

Ou tudo é a visão do desgosto da vida séria, sei lá. Ganhar salário e reclamar do trabalho, ter filhos e cônjuge, casa e artrite. Quem sabe, netos.