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sexta-feira, junho 18, 2004
 
DA ARTE DE SER FILHO DA PUTA

II - A brincadeira

Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore.'
(Poe, The Raven)

Cria cuervos y te sacarán los ojos (popular espanhol)

Ele: "cinco?", espanto contido. A expressão dela não mudou, manteve o sorriso leve. Silêncio de alguns segundos, por trás da garota passou a antiga namorada (dele) em direção à porta do bar. Os olhos dele fugiram pras pernas da ex durante o tempo entre uma piscada e outra; rápido, voltaram para o sorriso que o encarava. Estavam sentados numa mesa do lado de fora - um calor de suar, a camiseta ficava molhada. Tomou um gole rápido da Skol e esperou mais um instante pra ela prosseguir o raciocínio inusitado (ou insinuante?). E nada: só o sorriso - agora um ou dois milímetros mais largo. Sorriu também, e já ia apanhar a carteira no bolso de trás pra entrar na brincadeira mas vacilou. Vacilou pra remoer. E se não fosse a primeira vez que ela fazia isso? Impossível ler a resposta na pele brilhante do rosto. Sentiu no estômago aquele frio que conhecia bem, o medo. E se? "Comigo você vai de graça, não vai?", ele disse, tentando soar leve e canalha. Ela (embarcando, sorriso doce): "isso não existe, você não devia acreditar nessas estórias". Ele deixou a carteira no bolso e, devagar, colocou os dois braços sobre a mesa. Logo começava a dar tapas leves no tampo e reparava como faziam a cerveja vibrar no copo. Daí levantou os olhos pra ela: "Por que cinco?", decidiu sondar, a voz pouca coisa mais ligeira. Ela: "Não tenho grana pra beber hoje". Ele: "E por que não vinte, trinta?" Ela: "Porque eu preciso de cinco, não de vinte, trinta". Ele: "Mas se é pra brincar..." Ela: "Mas não é brincadeira, eu quero mesmo a grana". Ele ficou mudo. No pulso, o ponteiro dos segundos fazia baixinho: tic, tic, tic, tic, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito... Ela (voz doce): "E aí?". Apesar da pergunta, a voz não soava impaciente. Ele viu quando a ex apareceu na porta, a bolsa ainda no ombro, olhando pra fora, silhueta contra a luz que vinha de dentro. Sempre uma opção. Todas as outras mesas ocupadas, volta e meia surgia o rosto de um conhecido entre a porção de gente que entrava e saía. Ele: "Mas...", sua boca um pouco retorcida mostrava o incômodo confuso: "mas aí, se eu pagar, você ainda vai ter que gastar os cinco". Ela: "Pois é, vou beber e depois a gente pode ir embora". Ele: "Mas já tá tarde [eram quase quatro]". Ela: "Mas eu quero ficar por aí mais um pouco, conversar". Mais uns segundos pro timming e ele, tentando jogar o jogo: "E se eu te pagar mais cinco, você fica aqui na mesa?". Ela (sorriso seco): "Não". Ele, desconfortável, tentava se ajeitar na cadeira de ferro. Tomou mais um gole curto e disse, ainda engolindo: "Você não curtiu da última vez?". Ela: "Curti muito". Respirações em ritmos diferentes. Enquanto a boca dela abria e fechava, ele reparava nos lábios grossos que se espremiam um no outro, de leve, revelando e escondendo os dentes infantis. "Fala!", escutou às suas costas, e ele sentiu um tapinha no ombro. Antes de virar o rosto pra trás, percebeu que os olhos dela levantavam, espertos, pra encarar o dono da voz. O amigo primeiro foi até ela, que se ergueu rápido pra abraçá-lo: "E aí", o "i" se alongando uns dois segundos, sílaba feliz. Abraço quente. Ele cumprimentou o chegante sem levantar e disse (camarada): "como é que foi a balada?". O outro: "sussa", e sentou-se ao lado dela. Ela se animou a conversar, girou o corpo todo na direção do amigo comum. De vez em quando virava os olhos rápidos na direção dele, de lado, sem deixar o assunto morrer. A cada tiro desses ele ia ficando com vontade de tocar. Sentia o cheiro e o cheiro parecia trazer junto o gosto e a consistência. O sangue circulou. Os dentes apertados, o maxilar tenso, quem reparasse com cuidado até notava os ossos saltados de cada lado da bochecha. Agüentou quieto os minutos. Até que o outro: "Vou dar um rolê lá dentro", e ela: "vou no banheiro". Ele (voz amável, rosto sério, olhos impacientes), retendo-a pela mão: "fica aqui um pouco, quero te dizer uma coisa". Ela ficou.