A Maconha - Parte I
Como a maioria deve saber, a maconha é conhecida por ser uma das drogas sociais. Mas atende também por drogas jornalismo, drogas filosofia, drogas letras ou drogas biologia. Um dos maiores mistérios sobre a maconha é a sua propriedade agregadora. Os pesquisadores acreditam que, com o tempo, o usuário desenvolve uma parte do hipotálamo que permite perceber quando um beque é aceso, num raio de um quilômetro (mais ou menos). Isso explica como se formam as famosas e imensas rodinhas, cheias de gente que não foi convidada e aparece sabe lá de onde. Você conhece esse aí?. Eu não. Mas ninguém encana com isso, obviamente. O THC (substância ativa da cannabis) age também no senso de direção, na noção de tempo e no senso de humor da pessoa. Por isso é comum os alunos esquecerem de voltar pra aula depois do intervalo e, quando voltam, entrarem na sala errada. Às vezes o aluno equivocado assiste toda a aula sem notar a mínima diferença. Situação muito comum na UEL, onde isso pode acontecer mesmo com um careta mais desatento. Não tente contar uma piada ou fazer uma gracinha pra quem acabou de fumar ou fuma constantemente. Eles riem de coisas que você não entenderia, as chamadas
piras, então fique na sua e não incomode a pira. Pira é uma coisa que rola quando rola um. A única coisa que você precisa saber sobre as piras é que o tamanho delas varia. Existem piras pequenas, piras grandes e piras muito grandes. Essas são as mais comuns. Pois é. Você percebe que tá rolando uma pira muito grande quando alguém diz
que pira, sem muito entusiasmo. Aceite a informação como verdadeira. Quando estiver em uma das rodinhas, esteja pronto para
passar a bola. A bola gira no sentido horário ou não. Normalmente a pessoa à sua direita vai estar conversando com a pessoa à direita dela sobre alguma pira e, quando o beque chegar na mão dela (da pessoa à sua direita), ela vai simplesmente estender o beque na sua direção, sem olhar para a sua cara. Pegue o beque e decida na hora: dar uma bola ou passar a bola. Se for iniciante, evite entrar em uma rodinha onde estão rodando dois ou mais beques ao mesmo tempo. Porque cada um vai rodar em um sentido e você, sem experiência, pode se atrapalhar na hora de passar a bola. Você pode, por exemplo, acabar devolvendo o beque pra quem acabou de te passar. Na pior das hipóteses você pode até derrubar o beque no chão e um dos gatos da UEL, passando por ali e já viciadão, levar embora pro mocó deles. Nesse caso a turma pode se enfezar. A possibilidade de rolar violência é mínima, mas todos eles podem ficar de cara com você. O que é no mínimo desagradável. Outra coisa importante: não espere ver uma pira nas primeiras dez ou vinte vezes, isso é ponto pacífico. Também não pergunte o que leva alguém a insistir por dez ou vinte vezes, porque isso é extremamente deselegante. Se não rolar na trigésima, o jeito é se resignar e entender que, quando o mundo foi criado, algumas pessoas ganharam o dom da pira. Outras, não.
posted by 13 at 1:49 a.m.
Sina
Via na TV coisas que se assistem sábado à tarde e ouvi que giravam a maçaneta pelo lado de fora. Abriam a porta da rua devagar e, pela primeira vez, minha porta rangeu. Na minha sala entrou um sujeito com toda a pinta de Dante Alighieri, tunica vermelha e rosto meio transtornado. Ficou em silêncio, de pé, ao lado da mesinha com as flores de plástico. Ninguém disse nada por alguns segundos, continuei deitado no sofá. Ele, impaciente, esperava que eu falasse primeiro. Mais uns dez segundos, rompeu o silêncio:
- Então? Não se assusta nem fica curioso?
- Na verdade não.
- E por quê? - sua expressão demonstrava incômodo.
- Porque eu sei quem você é.
- Ah! - um "ah!" teatral, um abrir de braços teatral, um farfalhar de panos teatral.
- Você deveria saber - comecei - que na minha imaginação foi sempre assim que eu o idealizei. Pra mim é óbvio. E as alternativas são poucas: ou você é um doido de rua renascentista ou é o meu Destino.
- Sou o seu Destino! - anunciou abrindo os braços de novo. Novo farfalhar de panos.
Olhou pra direção da janela aberta, como que esperando que no céu irrompesse um relâmpago. Mas o dia estava claro, um quase-frio. E os olhos dele continuavam injetados - isso ele fazia bem.
- Não duvido de você, sabe? - eu disse enquanto me sentava - Sei que você é o meu Destino. Mas não vou acreditar em nada do que você disser. Não acredito em destino.
Um instante de hesitação.
- Tudo bem - e, dando de ombros, foi se dirigindo pra porta meio ofendido.
Num momento eu decidi, pulando do sofá:
- Não, espera aí.
- Tudo bem - ele fazia sinais forçados de contemporização - a gente se fala noutro dia - e alcançou a maçaneta.
- Espera só um pouco - eu o impedia de abrir a porta - não era bem aquilo que eu queria dizer.
Ele parou, respirou fundo e, olhando pra mim, reclamou:
- Meu, é foda.
Eu o conduzi de volta pro meio da sala, devagar. Ele meneava a cabeça. Não, na verdade ele sacudia a cabeça de um lado para o outro, querendo mostrar desconsolo. E insistiu:
- Olha, não dá mais. Não tem clima... A gente se fala outro dia - e de novo ameaçou partir. Mas dessa vez eu o retive na hora:
- Fica, Destino.
- Pode me chamar de Dante.
(
continua)
posted by 13 at 11:07 p.m.