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segunda-feira, junho 28, 2004
 
LA ARTE DE SER HIJO DE PUTA

III - Ay, ay, ay
Un dramatango en portunhol

"Mamacita! Mamacita! Estás aí?", gritam da rua. E numa mesa do "Bogart", no subsolo do mesmo prédio onde, no primeiro andar, mora La Mamacita, Jamon faz uma careta de nojo. "Mamacita de mierda", diz entredentes, porque já está quase bêbado de gin. "Jamon, Jamon, donde vás a parar com esta vida", lhe dizem em casa. Dentro do bar, o único garçom cobre as mesas (dez ou doze) com toalinhas xadrez vermelhas e meio sujas (como as das cantinas). O ar do "Bogart" sempre cheira a alho e cebola quando chega perto das dez da noite, quando dona Amália, mulher do proprietário, Don Lázaro, começa a preparar as porções. A escada que é entrada e saída do "Bogart" (el bar fica no subsolo) vai dar na rua de Las Flores, 348. Por isso Jamon reconheceu primeiro, no alto da escada, os sapatos de Jaime descendo os degraus de concreto - porque Jaime só tem aquele par, ou se tem outros não gosta. "Hola, Cabron!", Jamon berrou cuspindo, antes de ver a cabeça de Jaime aparecer completamente.
Jaime (sentando na mesa): "Hola, sócio, que passa?!"
Jamon: "Y passa alguna cosa con esta vida de mierda, cabron?"
Jaime: "Pues que ya estas transpassado, hein, sócio? Anda, no vás a aprontar como en la noche passada, hã?"
Jamon: "Tranqüilo, tranqüilo, cabrón. Hoy estoy tranqüilo"
Gritam lá fora: "Mamacita! Mamacita! Estás aí?"
Jaime (contente) : "Y está aí Mamacita? Ya volveu de Brassil? Entonces tengo de hablar con ella."
Jamon (desprezo): "Pues no sei, cabrón. A mi no me importa lo que passa con la puta."
Jaime não gosta que hablem assim de Mamacita, e finge que não ouviu.
Jaime: "Una cerveza, Alfredo!"
Alfredo traz a cerveja e, rindo, tira Jamon:
"No te voy a carregar hasta en casa de nuevo, Jamonito. Hoy vás a dormir en la calle. Que piensas, Jaime?"
Jaime (rindo para Jamon): "Te trago una coberta, sócio. Las passarelas estan muy frias."
Jamon (ranzinza): "Pues, se voy a estar con las madres de vosotros, no hay problema. Ellas son muy calientes."
Alfredo sai rindo.
Jaime: "Entonces, como vai ser la balada hoy?"
Jamon (despeitado): "Pues no vás a visitar tu Mamacita, cabrón?"
Jaime: "Ah, si. Ya me olvidava. Si está aí Mamacita... Tu vienes, sócio?"
Jamon (engolindo o gin e negando com a cabeça): "No, no creo. Voy quedarme aqui hasta la mañana.", e bate o copo na mesa.
Jaime (lhe batendo no ombro): "Hey, chico! Deja de tonterias. Que todo passa en el 'Apartamento', tu sabes."
Jamon (falando mais baixo): "Si lo sei, cabrón. Pero tu tambien sabes que a mi no me gusta cruzar con certas personas.", e abana a mão direita.
Jaime (dando de ombros): "Bueno, se te agrada quedarse meses como un tonto, bueno. A mi no me importa se van a estar lá Juan ou José", chega um pouco mais perto e diz, lento: "Y pienso que a ti tampoco devia importar".
O "Bogart" ainda tem pouca gente, duas mesas ocupadas, cada uma ostentando no centro um vaso de cerveza helada dentro do isopor amarelo. À noite todas as mesas vão estar com vários vasos de cerveza, pero solo uno isopor amarelo. Parecem a decoração do bar, das mesas.
E chega mais um sócio, Pedro, el calado. Não fala muito o Pedro, bebe como os outros. Sua expressão característica é um olhar profundo e ameno, "quase de súplica", diria o poeta Galhardo. Sobrancelhas grossas de galego, Pepe, el galego, diziam dele quando estava no colégio.
"Hola, que tal?", é o que sempre diz quando chega; joga a boina sobre a cadeira do lado e senta se espreguiçando. Fica olhando os outros dois com os olhos meio arregalados, como em suspense. Segundos de silêncio.
"Pues...", esboça um sorriso frouxo, "pues... chicos, que passa?", incomodado com a mudez dos outros.
Jaime (olhando para Jamon) "Pienso que volveu Mamacita".
Pepe (animado): "Pues si? Tengo de hablar com ella."
Jamon (contrariado e ríspido): "Si lo sé, hombre, a mi me parece que toda la puta gente tiene de hablar com la grande puta."
Pepe (que nunca chama o garçom Alfredo pelo nome): "Por favor", e levanta o copo de Jaime pra mostrar, "un copo."
Jamon: (espreguiçando-se no espaldar): "todavia", e os dois lhe prestam atenção, "todavia yo deveria quedarme en casa en esto final-de-semana. Yo iria ganar mas."
Pepe (sorri e pisca para Jaime)
Jaime (sorri e pisca para Pepe)
Nenhum acredita.
Alfredo traz o copo e não fala nada.
Pepe (enrugando a testa): "Puta madre! Me olvidei!"
Jamon (esquecendo a rabugice): "Pero hombre, que passa?"
Pepe (olha no relógio, resignado): "Bueno, ahora no hay mas nada que hacier. Yo tenia de comprar los ingressos para el cabaré de mañana. Prometi a Maria Maria."
Jaime (sorrindo e dando um tapa no ombro de Pepe): "Suerte, sócio! Te has escapado."
Pepe (ensimesmando-se): "Carajos, carajos, carajos...", bebe a cerveja. "Creo que asi ni me voy a encontrarme com ella mañana. Pero, que mierda! Estás cierto, tengo suerte. Nada de Maria Maria, estoy farto de esta mujer! Farto!"
Jamon e Jaime aplaudem, rindo, e quase gritam "Si, si! Nada mas de Maria Maria!"
Gritam lá fora, dessa vez voz de mulher: "Mamacita! Mamacita!"
O rosto de Jamon se fecha de novo. Se quem grita é Juanita Aranda, a outra deve estar junto. "Deve estar". Mais um gole de gin, mais um gole. O bar menos vazio, Alfredo passa de um lado para o outro mais vezes. Com sorte (deve pensar Jamon) com sorte as meninas ficam lá no "Stand Up", espelunca em frente, no nível da calçada. Ou logo vão entrar pela porta do "Bogart".
Jaime (pausa, fala): "Era Juanita Aranda?"
Jamon (sempre a certeza insolente): "Si, era", e começa a ficar impaciente, "puta madre!", desviando os olhos para o alto da escada, esperando que surja alguém. Sobre a mesa cai um silêncio oco, em que se ouve o tilintar dos copos no balcão, os talheres sendo lavados na pia, na cozinha o óleo estalando na frigideira de dona Amália, e, misturando tudo, o burburinho ainda tímido das outras mesas. "... y elle me dio um beso, el guapo, creiame chica, nadie poderia...", "... assisti ayer a el nuevo de Almodóvar, tu has visto?...", "...en casa, seguro que si, ella y el marido...", "...una pira, una grande, imensa pira..."
Pepe (alheio e refeito, esfregando as mãos): "Hoy yo tengo la plata, sócios! Vamos a las chicas?"
Jamon (sem prestar muita atenção à conversa): "Pero que chicas, hombre?", com o olhar de novo na entrada. Vozes femininas descem a escada, vindo da rua. O tom não é familiar, atrás das vozes entram três garotas tipo "Bogart", modas, modas. Só então Jamon percebe que nos alto-falantes das paredes já rola um jazz arrastado, o mesmo LP gasto de sempre. Conhece de cor até as partes riscadas. Quando está bêbado, gosta de brincar cantarolando a melodia e imitando, no momento exato, soprando o ar entre os dentes, o barulho da agulha pulando. Sete LPs velhos tem o velho Lázaro, sete LPs de jazz, o estilo varia com a hora. Começo da noite: cool; começo do movimento: be-bop; quando a coisa pega: swing, aquele mesmo do Benny Goodman. Na hora de mandar embora, dia quase amanhecendo, "Don" coloca o compacto do Chet Baker, uma música de cada lado. Lado A, lado B, lado A, lado B, lado A...
"Plec!". Estalo de dedos!
Jaime (interferindo): "Las chiiiicas!", e balança o peito arrebitado, fingindo ter tetas.
As três garotas "Bogart" já se postaram no balcão, olhadelas de vez em quando para as escadas, como Jamon. Bebem, as três, um "Blue Godard", martini doce com anis, e puxam papo com Don Lázaro. "Don" não nega uma conversa, engata um assunto no outro enquanto corta as laranjas pra preparar o "Holandês".
Jamon para Pepe (presunção boracha): "Se tienes plata me pagas otro gin, hombre!"
Pepe (...): "Pues que sea, mañana tu me pagas la cerveza", e coloca a mão no bolso.
Jamon (mais alto): "Que sea!"
Vem o gin.
Jaime ("alegre", para Pepe): "Daqui a poco vamos subir a la casa de Mamacita, tengo de hablar con ella. Vienes, Jamon?"
Jamon, bêbado, não olha mais pra escada e sim pro próprio copo. Responde, sem levantar os olhos: "No, voy quedarme acá, tranqüilo. Despues vuelvo a mi casa, tranqüilo."
Madrugada, o ar do "Bogart" se encheu da fumaça dos cigarros, o cheiro de alho e cebola agora é forte também por causa das comidas nas mesas. Já há muito mais que três garotas "Bogart" zanzando pelo ambiente, entre borachos e "casanovas". "Don" faz muitos "Blue Godards" e alguns "Holandeses", vasos de cervezas heladas de dos pesos vão sendo esvaziados. Lá em cima, rua de Las Flores, o dono do "Stand Up", un chino alquebrado, desce a porta de ferro do estabelecimento. No primeiro andar do número 348, em cima do "Bogart", está ecesa a luz de dois cômodos. Não se ouve música saindo do apartamento. Só o Charlie Parker que vaza do subsolo.