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domingo, agosto 08, 2004
 
Rastros
"Eu tenho uma porção de perversões", era ele dirigindo, os olhos fixos na rua escura e pouco iluminada pelos faróis, "mas a necrofilia não é uma delas!". Ao lado, ela esboçou um sorriso de boa vontade. Calma estranha, serenidade no momento de proximidade. O torniquete improvisado com os retalhos do pano de prato ia ficando vermelho do sangue do pulso dela. O fluxo não parava. Ele lembrou sem querer daquele conto do Garcia Márquez, "acho que era 'O Rastro do teu Sangue pela Neve'", tentava puxar assunto, buscando prendê-la pela atenção. Sabia que ela gostava de Garcia Márquez. "A namorada do cara se machuca, um arranhãozinho leve, e sangra sem parar; sangra até..." a última palavra morreu na garganta, não saiu. Alguns segundos de constrangimento. Queria gritar com ela, xingar e perguntar por que tinha feito aquela cagada. Mas não gritava. Os olhos fixos no caminho, medo de acontecer alguma coisa que atrasasse a chegada no hospital. "Tá doendo?", esse era o menor dos problemas, ambos sabiam disso, mas uma polidez de afeto dominava o interior do carro. "Um pouco", ela respondeu, os olhos brilhando, a íris úmida. Uma gota do sangue pingou sobre a calça dela, que tentava não sujar o estofamento. Ele disse: "acho que a gente não apertou direito", e freou o carro, as mãos trêmulas se dirigindo ao curativo. "Não", ela disse, "tá tudo bem", e, depois de muitas semanas, o acariciou de novo nos cabelos com a ponta dos dedos.