prolixidade

blogs para coment?rios longos

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sábado, novembro 27, 2004
 
Cerveja, ontem eu bebi demais. Nunca gostei de cerveja, a maioria sabe disso. E sempre duvidei que todo mundo realmente goste, como dizem. Cerveja é que nem Clarisse Lispector, muita gente odeia mas tem vergonha de admitir. Não gosto de Clarisse Lispector; não me orgulho disso, mas não gosto. Mas ontem, naquela mesa, com as cervejas todas, foram ditas todas as verdades do universo. Pode queimar todos os livros de filosofia, fecha os cursos de sociologia, mata todos os psicólogos. Acabou. Já desvendamos tudo o que é relevante e inerente ao homem e à sociedade. A política foi distrinchada e chegou-se à conclusão de que o Brasil nunca vai ter nem a sua revolução burguesa. Tudo foi dito, a genialidade foi definida, a ética - agora oficialmente - relativizada. Agora só falta colocar no papel. Um livro, só um; vai caber tudo em menos de 100 páginas, incluindo dedicatória e índice onomástico (Rafael, 23, 24; Marechal Petain, 52; Kafka, 17; Deleuze, 19, 64; Grupo É o Tchan, 71; BREVILHERI, Fernando 53; BONI, Paulo César, 61). Depois do provolone quase levantei pra vomitar, cerveja não me desce legal. Mas segurei o engulho na glote (ficou poético isso, hein?).


domingo, agosto 08, 2004
 
Rastros
"Eu tenho uma porção de perversões", era ele dirigindo, os olhos fixos na rua escura e pouco iluminada pelos faróis, "mas a necrofilia não é uma delas!". Ao lado, ela esboçou um sorriso de boa vontade. Calma estranha, serenidade no momento de proximidade. O torniquete improvisado com os retalhos do pano de prato ia ficando vermelho do sangue do pulso dela. O fluxo não parava. Ele lembrou sem querer daquele conto do Garcia Márquez, "acho que era 'O Rastro do teu Sangue pela Neve'", tentava puxar assunto, buscando prendê-la pela atenção. Sabia que ela gostava de Garcia Márquez. "A namorada do cara se machuca, um arranhãozinho leve, e sangra sem parar; sangra até..." a última palavra morreu na garganta, não saiu. Alguns segundos de constrangimento. Queria gritar com ela, xingar e perguntar por que tinha feito aquela cagada. Mas não gritava. Os olhos fixos no caminho, medo de acontecer alguma coisa que atrasasse a chegada no hospital. "Tá doendo?", esse era o menor dos problemas, ambos sabiam disso, mas uma polidez de afeto dominava o interior do carro. "Um pouco", ela respondeu, os olhos brilhando, a íris úmida. Uma gota do sangue pingou sobre a calça dela, que tentava não sujar o estofamento. Ele disse: "acho que a gente não apertou direito", e freou o carro, as mãos trêmulas se dirigindo ao curativo. "Não", ela disse, "tá tudo bem", e, depois de muitas semanas, o acariciou de novo nos cabelos com a ponta dos dedos.


sexta-feira, agosto 06, 2004
 
A minha barba é bem mais rala do que a do Lula mas tem dias que eu também acordo invocado. Acordo, claro, mais tarde do que o presidente - duvido que ele se levante só depois do almoço. E não ligo pro Bush, não ia ter muito pra dizer pra ele, na verdade. Quando eu acordo invocado (não vão pensar que eu acabei de acordar) eu escrevo alguma coisa por aqui. Dá menos bandeira do que sair na janela da sala e gritar pra quem tiver passando lá embaixo. E lê quem quer, ignora quem tem juízo. Mas enfim, o que é que o Bush tem a ver com tudo isso? É o seguinte. A gente tem mania de malhar os americanos por causa da arrogância e do jeito que eles se portam. Sociedade consumista, alheia ao resto do mundo, moralistas. Mas eu percebo que, no fundo, todo mundo é assim. Tô pra conhecer um indivíduo que não se abespinhe quando alguém critica o seu estilo de vida. Do mesmo jeito com os americanos. Já notaram que na retórica política dos EUA os ataques não são mais só contra "nossa nação", "a liberdade", "a democracia"? Quando um avião bate no maior arranha-céus de NY ou um Vietnã qualquer tenta avermelhar, eles (os presidentes americanos) logo dizem que estão ameaçando nosso "way of life". Uma parte é verdade, a outra (grande) é pura retórica. A Terra da Liberdade, o Líder do Mundo Livre, grandes elaborações narrativas pra legitimar a ascendência bélica e econômica. Bom, isso tá indo longe demais. Mas com o Zé do dia-a-dia é a mesma coisa. Aconteceu com um amigo antigo, que por acaso também se chama Zé. Um Zé acima de qualquer suspeita, aquela verve irônica (não sarcástica) que torna qualquer pessoa mais interessante, senso de humor; sujeito legal. Mas fui falar, entre uma piada e outra, que jornalista tem mania de fazer panelinha e o Zé, jornalista, não levou na esportiva. Tergiversou, disse que era normal, contou de casos e citou exemplos. Mas aparentemente se sentiu atingido no seu direito de "panelar".


terça-feira, agosto 03, 2004
 
Borgianas (mais um post com prazo de validade de um dia)
Era eu, sem dúvida! O nome, a idade, o lugar, tudo batia. Não podem ter dois com tantas características idênticas. Fuçando na rede, jogando pesquisas aleatórias no Google, descobri semana passada um blog escrito por mim que eu não conhecia. "O Livro do Suicida", era o título da página - nome que eu não achei tão interessante, mas nem por isso desprezível. Página em negro, fundo escuro com o texto em branco. Os posts falavam de pessoas que eu conheço, citavam os mesmos lugares que eu freqüento, mas de todas as situações descritas eu não me lembro de nenhuma. Tudo muito coerente, é razoável que tudo aquilo tivesse rolado - mas eu não lembro. Descartada a possibilidade de coincidência (era impossível), formulei duas hipóteses pra explicar. Uma fantasiosa e a outra preocupante. Primeiro: podia ser alguém se passando por mim, alguém que me conhecesse o suficiente e fosse da mesma turma. Mas teria que ser alguém que me conhecesse muito e tivesse a paciência de escrever todos os dias (a renovação é praticamente diária). E tudo isso pra que o blog fique desconhecido. Porque não há um único comentário nos posts. Não, não era outra pessoa. A segunda hipótese: era eu mesmo quem escrevia. Poderiam ser posts de quando eu estivesse bêbado, mas eu quase nunca esqueço das coisas que faço quando eu bebo. Então só se eu estivesse num estágio avançado de esquizofrenia. Duas personalidades, duas pessoas. Mesmo assim, o que dizer das situações descritas? Tinha certeza que elas não podiam ter rolado, inclusive porque eu não estive nos locais citados nos posts naquelas datas. Eu teria que ter inventado todas aquelas situações. Não, tenho certeza de que não escrevi nada daquilo. Mas, por outro lado, também tenho certeza de que nenhuma outra pessoa no mundo poderia ter escrito, mesmo por causa do jeito de escrever. Nem adianta procurar, hoje tentei entrar de novo e a página não existe. E no Google, a mesma busca não indica aquele blog.


terça-feira, julho 27, 2004
 
I want to tell you
My head is filled with things to say
When you're here
All those words, they seem to slip away

When I get near you,
The games begin to drag me down
It's all right
I'll make you maybe next time around

But if I seem to act unkind
It's only me, it's not my mind
That is confusing things.

I want to tell you
I feel hung up but I don't know why,
I don't mind
I could wait forever, I've got time

Sometimes I wish I knew you well,
Then I could speak my mind and tell you
Maybe you'd understand

I want to tell you
I feel hung up but I don't know why,
I don't mind
I could wait forever, I've got time, I've got time, I've got time


segunda-feira, junho 28, 2004
 
LA ARTE DE SER HIJO DE PUTA

III - Ay, ay, ay
Un dramatango en portunhol

"Mamacita! Mamacita! Estás aí?", gritam da rua. E numa mesa do "Bogart", no subsolo do mesmo prédio onde, no primeiro andar, mora La Mamacita, Jamon faz uma careta de nojo. "Mamacita de mierda", diz entredentes, porque já está quase bêbado de gin. "Jamon, Jamon, donde vás a parar com esta vida", lhe dizem em casa. Dentro do bar, o único garçom cobre as mesas (dez ou doze) com toalinhas xadrez vermelhas e meio sujas (como as das cantinas). O ar do "Bogart" sempre cheira a alho e cebola quando chega perto das dez da noite, quando dona Amália, mulher do proprietário, Don Lázaro, começa a preparar as porções. A escada que é entrada e saída do "Bogart" (el bar fica no subsolo) vai dar na rua de Las Flores, 348. Por isso Jamon reconheceu primeiro, no alto da escada, os sapatos de Jaime descendo os degraus de concreto - porque Jaime só tem aquele par, ou se tem outros não gosta. "Hola, Cabron!", Jamon berrou cuspindo, antes de ver a cabeça de Jaime aparecer completamente.
Jaime (sentando na mesa): "Hola, sócio, que passa?!"
Jamon: "Y passa alguna cosa con esta vida de mierda, cabron?"
Jaime: "Pues que ya estas transpassado, hein, sócio? Anda, no vás a aprontar como en la noche passada, hã?"
Jamon: "Tranqüilo, tranqüilo, cabrón. Hoy estoy tranqüilo"
Gritam lá fora: "Mamacita! Mamacita! Estás aí?"
Jaime (contente) : "Y está aí Mamacita? Ya volveu de Brassil? Entonces tengo de hablar con ella."
Jamon (desprezo): "Pues no sei, cabrón. A mi no me importa lo que passa con la puta."
Jaime não gosta que hablem assim de Mamacita, e finge que não ouviu.
Jaime: "Una cerveza, Alfredo!"
Alfredo traz a cerveja e, rindo, tira Jamon:
"No te voy a carregar hasta en casa de nuevo, Jamonito. Hoy vás a dormir en la calle. Que piensas, Jaime?"
Jaime (rindo para Jamon): "Te trago una coberta, sócio. Las passarelas estan muy frias."
Jamon (ranzinza): "Pues, se voy a estar con las madres de vosotros, no hay problema. Ellas son muy calientes."
Alfredo sai rindo.
Jaime: "Entonces, como vai ser la balada hoy?"
Jamon (despeitado): "Pues no vás a visitar tu Mamacita, cabrón?"
Jaime: "Ah, si. Ya me olvidava. Si está aí Mamacita... Tu vienes, sócio?"
Jamon (engolindo o gin e negando com a cabeça): "No, no creo. Voy quedarme aqui hasta la mañana.", e bate o copo na mesa.
Jaime (lhe batendo no ombro): "Hey, chico! Deja de tonterias. Que todo passa en el 'Apartamento', tu sabes."
Jamon (falando mais baixo): "Si lo sei, cabrón. Pero tu tambien sabes que a mi no me gusta cruzar con certas personas.", e abana a mão direita.
Jaime (dando de ombros): "Bueno, se te agrada quedarse meses como un tonto, bueno. A mi no me importa se van a estar lá Juan ou José", chega um pouco mais perto e diz, lento: "Y pienso que a ti tampoco devia importar".
O "Bogart" ainda tem pouca gente, duas mesas ocupadas, cada uma ostentando no centro um vaso de cerveza helada dentro do isopor amarelo. À noite todas as mesas vão estar com vários vasos de cerveza, pero solo uno isopor amarelo. Parecem a decoração do bar, das mesas.
E chega mais um sócio, Pedro, el calado. Não fala muito o Pedro, bebe como os outros. Sua expressão característica é um olhar profundo e ameno, "quase de súplica", diria o poeta Galhardo. Sobrancelhas grossas de galego, Pepe, el galego, diziam dele quando estava no colégio.
"Hola, que tal?", é o que sempre diz quando chega; joga a boina sobre a cadeira do lado e senta se espreguiçando. Fica olhando os outros dois com os olhos meio arregalados, como em suspense. Segundos de silêncio.
"Pues...", esboça um sorriso frouxo, "pues... chicos, que passa?", incomodado com a mudez dos outros.
Jaime (olhando para Jamon) "Pienso que volveu Mamacita".
Pepe (animado): "Pues si? Tengo de hablar com ella."
Jamon (contrariado e ríspido): "Si lo sé, hombre, a mi me parece que toda la puta gente tiene de hablar com la grande puta."
Pepe (que nunca chama o garçom Alfredo pelo nome): "Por favor", e levanta o copo de Jaime pra mostrar, "un copo."
Jamon: (espreguiçando-se no espaldar): "todavia", e os dois lhe prestam atenção, "todavia yo deveria quedarme en casa en esto final-de-semana. Yo iria ganar mas."
Pepe (sorri e pisca para Jaime)
Jaime (sorri e pisca para Pepe)
Nenhum acredita.
Alfredo traz o copo e não fala nada.
Pepe (enrugando a testa): "Puta madre! Me olvidei!"
Jamon (esquecendo a rabugice): "Pero hombre, que passa?"
Pepe (olha no relógio, resignado): "Bueno, ahora no hay mas nada que hacier. Yo tenia de comprar los ingressos para el cabaré de mañana. Prometi a Maria Maria."
Jaime (sorrindo e dando um tapa no ombro de Pepe): "Suerte, sócio! Te has escapado."
Pepe (ensimesmando-se): "Carajos, carajos, carajos...", bebe a cerveja. "Creo que asi ni me voy a encontrarme com ella mañana. Pero, que mierda! Estás cierto, tengo suerte. Nada de Maria Maria, estoy farto de esta mujer! Farto!"
Jamon e Jaime aplaudem, rindo, e quase gritam "Si, si! Nada mas de Maria Maria!"
Gritam lá fora, dessa vez voz de mulher: "Mamacita! Mamacita!"
O rosto de Jamon se fecha de novo. Se quem grita é Juanita Aranda, a outra deve estar junto. "Deve estar". Mais um gole de gin, mais um gole. O bar menos vazio, Alfredo passa de um lado para o outro mais vezes. Com sorte (deve pensar Jamon) com sorte as meninas ficam lá no "Stand Up", espelunca em frente, no nível da calçada. Ou logo vão entrar pela porta do "Bogart".
Jaime (pausa, fala): "Era Juanita Aranda?"
Jamon (sempre a certeza insolente): "Si, era", e começa a ficar impaciente, "puta madre!", desviando os olhos para o alto da escada, esperando que surja alguém. Sobre a mesa cai um silêncio oco, em que se ouve o tilintar dos copos no balcão, os talheres sendo lavados na pia, na cozinha o óleo estalando na frigideira de dona Amália, e, misturando tudo, o burburinho ainda tímido das outras mesas. "... y elle me dio um beso, el guapo, creiame chica, nadie poderia...", "... assisti ayer a el nuevo de Almodóvar, tu has visto?...", "...en casa, seguro que si, ella y el marido...", "...una pira, una grande, imensa pira..."
Pepe (alheio e refeito, esfregando as mãos): "Hoy yo tengo la plata, sócios! Vamos a las chicas?"
Jamon (sem prestar muita atenção à conversa): "Pero que chicas, hombre?", com o olhar de novo na entrada. Vozes femininas descem a escada, vindo da rua. O tom não é familiar, atrás das vozes entram três garotas tipo "Bogart", modas, modas. Só então Jamon percebe que nos alto-falantes das paredes já rola um jazz arrastado, o mesmo LP gasto de sempre. Conhece de cor até as partes riscadas. Quando está bêbado, gosta de brincar cantarolando a melodia e imitando, no momento exato, soprando o ar entre os dentes, o barulho da agulha pulando. Sete LPs velhos tem o velho Lázaro, sete LPs de jazz, o estilo varia com a hora. Começo da noite: cool; começo do movimento: be-bop; quando a coisa pega: swing, aquele mesmo do Benny Goodman. Na hora de mandar embora, dia quase amanhecendo, "Don" coloca o compacto do Chet Baker, uma música de cada lado. Lado A, lado B, lado A, lado B, lado A...
"Plec!". Estalo de dedos!
Jaime (interferindo): "Las chiiiicas!", e balança o peito arrebitado, fingindo ter tetas.
As três garotas "Bogart" já se postaram no balcão, olhadelas de vez em quando para as escadas, como Jamon. Bebem, as três, um "Blue Godard", martini doce com anis, e puxam papo com Don Lázaro. "Don" não nega uma conversa, engata um assunto no outro enquanto corta as laranjas pra preparar o "Holandês".
Jamon para Pepe (presunção boracha): "Se tienes plata me pagas otro gin, hombre!"
Pepe (...): "Pues que sea, mañana tu me pagas la cerveza", e coloca a mão no bolso.
Jamon (mais alto): "Que sea!"
Vem o gin.
Jaime ("alegre", para Pepe): "Daqui a poco vamos subir a la casa de Mamacita, tengo de hablar con ella. Vienes, Jamon?"
Jamon, bêbado, não olha mais pra escada e sim pro próprio copo. Responde, sem levantar os olhos: "No, voy quedarme acá, tranqüilo. Despues vuelvo a mi casa, tranqüilo."
Madrugada, o ar do "Bogart" se encheu da fumaça dos cigarros, o cheiro de alho e cebola agora é forte também por causa das comidas nas mesas. Já há muito mais que três garotas "Bogart" zanzando pelo ambiente, entre borachos e "casanovas". "Don" faz muitos "Blue Godards" e alguns "Holandeses", vasos de cervezas heladas de dos pesos vão sendo esvaziados. Lá em cima, rua de Las Flores, o dono do "Stand Up", un chino alquebrado, desce a porta de ferro do estabelecimento. No primeiro andar do número 348, em cima do "Bogart", está ecesa a luz de dois cômodos. Não se ouve música saindo do apartamento. Só o Charlie Parker que vaza do subsolo.

quinta-feira, junho 24, 2004
 
A Maconha - Parte I

Como a maioria deve saber, a maconha é conhecida por ser uma das drogas sociais. Mas atende também por drogas jornalismo, drogas filosofia, drogas letras ou drogas biologia. Um dos maiores mistérios sobre a maconha é a sua propriedade agregadora. Os pesquisadores acreditam que, com o tempo, o usuário desenvolve uma parte do hipotálamo que permite perceber quando um beque é aceso, num raio de um quilômetro (mais ou menos). Isso explica como se formam as famosas e imensas rodinhas, cheias de gente que não foi convidada e aparece sabe lá de onde. Você conhece esse aí?. Eu não. Mas ninguém encana com isso, obviamente. O THC (substância ativa da cannabis) age também no senso de direção, na noção de tempo e no senso de humor da pessoa. Por isso é comum os alunos esquecerem de voltar pra aula depois do intervalo e, quando voltam, entrarem na sala errada. Às vezes o aluno equivocado assiste toda a aula sem notar a mínima diferença. Situação muito comum na UEL, onde isso pode acontecer mesmo com um careta mais desatento. Não tente contar uma piada ou fazer uma gracinha pra quem acabou de fumar ou fuma constantemente. Eles riem de coisas que você não entenderia, as chamadas piras, então fique na sua e não incomode a pira. Pira é uma coisa que rola quando rola um. A única coisa que você precisa saber sobre as piras é que o tamanho delas varia. Existem piras pequenas, piras grandes e piras muito grandes. Essas são as mais comuns. Pois é. Você percebe que tá rolando uma pira muito grande quando alguém diz que pira, sem muito entusiasmo. Aceite a informação como verdadeira. Quando estiver em uma das rodinhas, esteja pronto para passar a bola. A bola gira no sentido horário ou não. Normalmente a pessoa à sua direita vai estar conversando com a pessoa à direita dela sobre alguma pira e, quando o beque chegar na mão dela (da pessoa à sua direita), ela vai simplesmente estender o beque na sua direção, sem olhar para a sua cara. Pegue o beque e decida na hora: dar uma bola ou passar a bola. Se for iniciante, evite entrar em uma rodinha onde estão rodando dois ou mais beques ao mesmo tempo. Porque cada um vai rodar em um sentido e você, sem experiência, pode se atrapalhar na hora de passar a bola. Você pode, por exemplo, acabar devolvendo o beque pra quem acabou de te passar. Na pior das hipóteses você pode até derrubar o beque no chão e um dos gatos da UEL, passando por ali e já viciadão, levar embora pro mocó deles. Nesse caso a turma pode se enfezar. A possibilidade de rolar violência é mínima, mas todos eles podem ficar de cara com você. O que é no mínimo desagradável. Outra coisa importante: não espere ver uma pira nas primeiras dez ou vinte vezes, isso é ponto pacífico. Também não pergunte o que leva alguém a insistir por dez ou vinte vezes, porque isso é extremamente deselegante. Se não rolar na trigésima, o jeito é se resignar e entender que, quando o mundo foi criado, algumas pessoas ganharam o dom da pira. Outras, não.


domingo, junho 20, 2004
 
Sina
Via na TV coisas que se assistem sábado à tarde e ouvi que giravam a maçaneta pelo lado de fora. Abriam a porta da rua devagar e, pela primeira vez, minha porta rangeu. Na minha sala entrou um sujeito com toda a pinta de Dante Alighieri, tunica vermelha e rosto meio transtornado. Ficou em silêncio, de pé, ao lado da mesinha com as flores de plástico. Ninguém disse nada por alguns segundos, continuei deitado no sofá. Ele, impaciente, esperava que eu falasse primeiro. Mais uns dez segundos, rompeu o silêncio:
- Então? Não se assusta nem fica curioso?
- Na verdade não.
- E por quê? - sua expressão demonstrava incômodo.
- Porque eu sei quem você é.
- Ah! - um "ah!" teatral, um abrir de braços teatral, um farfalhar de panos teatral.
- Você deveria saber - comecei - que na minha imaginação foi sempre assim que eu o idealizei. Pra mim é óbvio. E as alternativas são poucas: ou você é um doido de rua renascentista ou é o meu Destino.
- Sou o seu Destino! - anunciou abrindo os braços de novo. Novo farfalhar de panos.
Olhou pra direção da janela aberta, como que esperando que no céu irrompesse um relâmpago. Mas o dia estava claro, um quase-frio. E os olhos dele continuavam injetados - isso ele fazia bem.
- Não duvido de você, sabe? - eu disse enquanto me sentava - Sei que você é o meu Destino. Mas não vou acreditar em nada do que você disser. Não acredito em destino.
Um instante de hesitação.
- Tudo bem - e, dando de ombros, foi se dirigindo pra porta meio ofendido.
Num momento eu decidi, pulando do sofá:
- Não, espera aí.
- Tudo bem - ele fazia sinais forçados de contemporização - a gente se fala noutro dia - e alcançou a maçaneta.
- Espera só um pouco - eu o impedia de abrir a porta - não era bem aquilo que eu queria dizer.
Ele parou, respirou fundo e, olhando pra mim, reclamou:
- Meu, é foda.
Eu o conduzi de volta pro meio da sala, devagar. Ele meneava a cabeça. Não, na verdade ele sacudia a cabeça de um lado para o outro, querendo mostrar desconsolo. E insistiu:
- Olha, não dá mais. Não tem clima... A gente se fala outro dia - e de novo ameaçou partir. Mas dessa vez eu o retive na hora:
- Fica, Destino.
- Pode me chamar de Dante.
(continua)

sexta-feira, junho 18, 2004
 
DA ARTE DE SER FILHO DA PUTA

II - A brincadeira

Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore.'
(Poe, The Raven)

Cria cuervos y te sacarán los ojos (popular espanhol)

Ele: "cinco?", espanto contido. A expressão dela não mudou, manteve o sorriso leve. Silêncio de alguns segundos, por trás da garota passou a antiga namorada (dele) em direção à porta do bar. Os olhos dele fugiram pras pernas da ex durante o tempo entre uma piscada e outra; rápido, voltaram para o sorriso que o encarava. Estavam sentados numa mesa do lado de fora - um calor de suar, a camiseta ficava molhada. Tomou um gole rápido da Skol e esperou mais um instante pra ela prosseguir o raciocínio inusitado (ou insinuante?). E nada: só o sorriso - agora um ou dois milímetros mais largo. Sorriu também, e já ia apanhar a carteira no bolso de trás pra entrar na brincadeira mas vacilou. Vacilou pra remoer. E se não fosse a primeira vez que ela fazia isso? Impossível ler a resposta na pele brilhante do rosto. Sentiu no estômago aquele frio que conhecia bem, o medo. E se? "Comigo você vai de graça, não vai?", ele disse, tentando soar leve e canalha. Ela (embarcando, sorriso doce): "isso não existe, você não devia acreditar nessas estórias". Ele deixou a carteira no bolso e, devagar, colocou os dois braços sobre a mesa. Logo começava a dar tapas leves no tampo e reparava como faziam a cerveja vibrar no copo. Daí levantou os olhos pra ela: "Por que cinco?", decidiu sondar, a voz pouca coisa mais ligeira. Ela: "Não tenho grana pra beber hoje". Ele: "E por que não vinte, trinta?" Ela: "Porque eu preciso de cinco, não de vinte, trinta". Ele: "Mas se é pra brincar..." Ela: "Mas não é brincadeira, eu quero mesmo a grana". Ele ficou mudo. No pulso, o ponteiro dos segundos fazia baixinho: tic, tic, tic, tic, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito... Ela (voz doce): "E aí?". Apesar da pergunta, a voz não soava impaciente. Ele viu quando a ex apareceu na porta, a bolsa ainda no ombro, olhando pra fora, silhueta contra a luz que vinha de dentro. Sempre uma opção. Todas as outras mesas ocupadas, volta e meia surgia o rosto de um conhecido entre a porção de gente que entrava e saía. Ele: "Mas...", sua boca um pouco retorcida mostrava o incômodo confuso: "mas aí, se eu pagar, você ainda vai ter que gastar os cinco". Ela: "Pois é, vou beber e depois a gente pode ir embora". Ele: "Mas já tá tarde [eram quase quatro]". Ela: "Mas eu quero ficar por aí mais um pouco, conversar". Mais uns segundos pro timming e ele, tentando jogar o jogo: "E se eu te pagar mais cinco, você fica aqui na mesa?". Ela (sorriso seco): "Não". Ele, desconfortável, tentava se ajeitar na cadeira de ferro. Tomou mais um gole curto e disse, ainda engolindo: "Você não curtiu da última vez?". Ela: "Curti muito". Respirações em ritmos diferentes. Enquanto a boca dela abria e fechava, ele reparava nos lábios grossos que se espremiam um no outro, de leve, revelando e escondendo os dentes infantis. "Fala!", escutou às suas costas, e ele sentiu um tapinha no ombro. Antes de virar o rosto pra trás, percebeu que os olhos dela levantavam, espertos, pra encarar o dono da voz. O amigo primeiro foi até ela, que se ergueu rápido pra abraçá-lo: "E aí", o "i" se alongando uns dois segundos, sílaba feliz. Abraço quente. Ele cumprimentou o chegante sem levantar e disse (camarada): "como é que foi a balada?". O outro: "sussa", e sentou-se ao lado dela. Ela se animou a conversar, girou o corpo todo na direção do amigo comum. De vez em quando virava os olhos rápidos na direção dele, de lado, sem deixar o assunto morrer. A cada tiro desses ele ia ficando com vontade de tocar. Sentia o cheiro e o cheiro parecia trazer junto o gosto e a consistência. O sangue circulou. Os dentes apertados, o maxilar tenso, quem reparasse com cuidado até notava os ossos saltados de cada lado da bochecha. Agüentou quieto os minutos. Até que o outro: "Vou dar um rolê lá dentro", e ela: "vou no banheiro". Ele (voz amável, rosto sério, olhos impacientes), retendo-a pela mão: "fica aqui um pouco, quero te dizer uma coisa". Ela ficou.

sábado, junho 12, 2004
 
Olha aí, he he

Discos & Pessoas II

Os discos no escuro são da Plebe Rude e da Camisa de Venus.

Outra opção

Discos & Pessoas III

quarta-feira, junho 09, 2004
 
Rechiflado en mi tristeza, te evoco y veo que has sido
en mi pobre vida paria sólo una buena mujer.
Tu presencia de bacana puso calor en mi nido,
fuiste buena, consecuente, y yo sé que me has querido
como no quisiste a nadie, como no podrás querer.

Se dio el juego de remanye cuando vos, pobre percanta,
gambeteabas la pobreza en la casa de pensión.
Hoy sos toda una bacana, la vida te ríe y canta,
Los morlacos del otario los jugás a la marchanta
como juega el gato maula con el mísero ratón.

Hoy tenés el mate lleno de infelices ilusiones,
te engrupieron los otarios, las amigas y el gavión;
la milonga, entre magnates, con sus locas tentaciones,
donde triunfan y claudican milongueras pretensiones,
se te ha entrado muy adentro en tu pobre corazón.

Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado;
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás...
Los favores recibidos creo habértelos pagado
y, si alguna deuda chica sin querer se me ha olvidado,
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.

Mientras tanto, que tus triunfos, pobres triunfos pasajeros,
sean una larga fila de riquezas y placer;
que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos,
que te abrás de las paradas con cafishos milongueros
y que digan los muchachos: Es una buena mujer.

Y mañana, cuando seas descolado mueble viejo
y no tengas esperanzas en tu pobre corazón,
si precisás una ayuda, si te hace falta un consejo,
acordate de este amigo que ha de jugarse el pellejo
pa'ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión.

terça-feira, junho 01, 2004
 
Dentes
Músicas em americano me esquentam quando o barulho arrastado sacode a memória, duas horas e meia mais tarde. Junto ou perto ou lá não afastam seu olhar contrito (mesmo na mágoa as pupilas carregam o riso, hein?). Sei lá se me apraz, se tentei lhe vergar o todo, ou se com as letras aplicadas no ouvido pretendia lhe moer a razão (ou mais o senso). Gasto menos, agora, ruminando o que sobrou, na boca, do seu gosto; já devo ter engolido tudo. E sem reflexões introspectivas, porque não penso nunca; receio de me encontrar, um dia, em algum beco do meu silêncio. Enfim, não juro nem projeto - ouço e olho, que a atenção um dia vinga. Pois se o sorriso um dia aflora em dentes.


segunda-feira, maio 10, 2004
 
Vida curta vida
E se a gente tivesse data de validade. Cada um nascia com a data da morte pré-determinada. Algo assim como fab. 07/74 - val. 07/15 impresso em um dos lados da bunda. Os que acreditam no destino, nos astros, pensam um pouco assim (só que pra eles, em vez das nádegas, o prazo está escrito nas estrelas). Como eu não acredito, não. Dizem que o corpo humano foi feito pra durar, no máximo, 130 ou 140 anos - quando bem conservado e nascido sob condições ideais. Fico imanginando: chegar aos 60, já considerada terceira idade, e ter ainda mais 60 anos de vida. Tem gente que acha tempo demais. Pode ser. Mas se tem alguma coisa que me atrai nessa longevidade é a possibilidade de ser testemunha do que vai acontecer nas próximas décadas. Pelo andar das novidades, muita coisa interessante deve pintar por aí, na bioquímica, na computação, nas viagens espaciais, na arqueologia, na genética (se bem que essa área me assusta um pouco). Chutando alto, quem sabe a gente possa voar (sem aparelhos), ser o que e quem a gente quiser pelo tempo que a gente quiser (realidades virtuais-reais), ou mesmo se tornar imortal. Como o prazo de validade da vodka: indeterminado.

Mas voltando ao hoje, outra dúvida que me ocorre tem a ver um pouco com tudo isso mas é bem menos "viajada" e bem menos etérea. Penso se tem gente que nasceu pra viver só vinte, só trinta, só quarenta anos. Sem o lance do destino, sem pré-determinações. Digo pessoas que aproveitam tudo o que se poderia até uma certa idade e decidem que está bom, que chega. Não vou falar dos suicidas depressivos ou desesperados porque seria outra discussão imensa e, além do mais, neles rola, muitas vezes, uma coisa química, patológica. É de quem aproveita a vida como na velha história da laranja chupada até não sobrar nenhum suco no bagaço que eu estou falando.

Pode parecer perigoso ou leviano dizer assim, mas falo também em alguma coisa como uma "morte estética". Quem encara uma vida como uma obra de arte pode pensar em terminar essa obra no tempo certo. Alguns romances são geniais com 500, com mil páginas (como Ulisses) e outros são geniais com 150. Se tivessem 300 páginas, as 150 a mais poderiam se arrastar sem nada acrescentar. Encerrar a carreira no auge. "Isto posto, disse o depoente que nada mais tinha a acrescentar". "Coitado, morreu tão jovem...". "Imagina o que ele não teria feito se vivesse mais trinta anos...". Talvez nada que valesse a pena.

Mesmo se não se encarar assim, falando de modo mais prosaico, pode surgir em alguém a consciência de que viveu o que tinha pra viver, aproveitou tudo e de tudo e agora chega. Não precisa ser suicídio, mas um simples descuido, como o de Tchaikovsky ao beber água não fervida, ou de tantos que insistem em dirigir à toda com meia garrafa de vodka na cuca.

Beber demais, se drogar demais. Quem faz isso, mesmo de quem se diz que é inconsequência juvenil, sabe (no fundo sabe) que se continuar abusando vai estar cortando meses de saúde (ou de vida) lá na frente. Mesmo assim, a opção é feita. Aproveitar, viver, e morrer antes. O arrependimento pode vir, claro, quando aparecer o câncer, a cirrose ou a bala. Mas é um preço que hoje parece tão barato.

Ou tudo é a visão do desgosto da vida séria, sei lá. Ganhar salário e reclamar do trabalho, ter filhos e cônjuge, casa e artrite. Quem sabe, netos.

terça-feira, março 23, 2004
 
Biocombustível
Eu fico preocupado (pouco preocupado, na verdade). O corpo humano não é como o gol cinza que a gente tinha em 87. Nosso gol era movido a álcool. O ser humano não é movido a álcool, é importante que vocês entendam isso. Então deixa eu explicar melhor. É verdade que o ser humano é um animal (às vezes selvagem, como ontem à noite), um animal onívoro, que come de tudo. Mas o estômago do ser humano não foi (percebam: eu disse não foi) projetado para receber um litro de álcool etílico por noite. Pra ficar mais fácil eu vou ilustrar:


Isso é um tanque de carro (foi projetado para receber litros de álcool)


E isso é um estômago (não foi projetado para receber litros de álcool)

Apesar da semelhança, existem pequenas diferenças cruciais. Carros, por exemplo, não falam demais nem dão vexame depois que você abastece. Tá dando pra pegar a essência? Além do estômago, tem outro coisa dentro do corpo do ser humano que também é afetada por noites de recepção a calouros. Chama-se fí-ga-do. O meu não tem reclamado ainda.


Três fígados


Mãe é uma pessoa que diz que você bebe demais, porque hoje você é novo, mas vai ver o seu fígado quando você tiver cinqüenta anos.

Eu tenho certeza que ontem de madrugada eu entrei em casa com uma garrafa de Vodka ainda com um restinho. Mas eu não tenho idéia de onde ela tá. Sumiu, simplesmente.

domingo, março 21, 2004
 
Pathos
Não é preconceito, mas namorar gente com outra criação é difícil. Valores diferentes, cultura diferente. Esse é o principal problema. Namorar com alguém que tem cultura diferente é foda. Uma vez eu tive um começo de relacionamento com uma grega, chamava Penélope. Não como a outra Penélope, porque a Penélope que eu conheci nem sabia cerzir uma meia (como se atualmente meias ainda fossem cerzidas). Essa falta de prendas dela era atraente. E era uma mulher bonita, beleza clássica, rosto anguloso e pele mediterrânea. Mais velha do que eu uns cinco anos. Não deu certo, apesar de tudo. Muito complicada. Ela vinha de outro relacionamento com um grego. Não chegaram a casar, ela me contava que ele era muito "poderoso" e galinha, dormia com uma mulher diferente a cada noite. Seduziu a Penélope, que ficou grávida dele. Vi uma foto do cara, barbudo e cabeludo, não passava a imagem de empresário rico. Lembraria mais um hippie, se não fosse tão forte. Zeus, acho que era esse o nome dele. A Penélope ainda tinha verdadeira veneração por ele, mesmo depois do cara ter sacaneado com ela. Perferozinho, o filho, era grande pra idade quando eu o conheci. Com sete anos já tinha quase três metros, duas cabeças e um olho só em cada uma. Eu saía da faculdade toda noite e dava uma passada na Penélope. Mas antes eu sempre tinha que passar numa pitonisa ali na Quintino pra ela me emprestar o elmo de Ares e o velocino de Apolo, que era pra me protejer do Perferozinho, pra ele não me estraçalhar quando entrasse na sala. Enfim, a Penélope era uma mulher aparentemente feliz, apesar de, embaixo do seu sorriso constante, eu notar sempre um fundo de melancolia. Eu realmente gostei dela, mas era difícil. Além do antigo caso mal resolvido, a Penépole era daquelas mulheres que sempre estavam exigindo provas de afeto. Com menos de um mês de relacionamento ela queria que eu matasse o Leão da Neméia, que vinha semeando o pânico entre os agricultores de Tamarana, e lhe trouxesse a pele do leão (que era impermeável). Eu dei uma desculpa qualquer, dizendo que eu já tinha combinado de sair com o pessoal no domingo. Mas na verdade eu achava cedo pra esse tipo de coisa. Com menos de três meses a situação já estava bem desgastada. Piorou tudo quando o Zeus voltou a procurar a Penélope. Ele aparecia de repente, a qualquer hora, sem avisar. Aí era um saco, porque o dia virava noite, o céu se cobria de nuvens, a terra tremia. E a TV normalmente saía do ar. Aquilo tudo já tava me cansando. Foi quando eu conheci a família dela. A mãe, dona Górgona, tinha, em sociedade com as duas tias da Penélope, um restaurante de carne humana (tinham acabado de encomendar uma frigideira industrial, pra fritar mais gente ao mesmo tempo). Eu nem me incomodava muito com as cobras na cabeça da mulher, mas o insuportável era aquele olharzinho petrificante que ela me lançava de vez em quando. Dava pra ver que ela não gostava de mim. E o irmão dela, o Narciso, era um chato, prepotente. Ninguém gostava dele na cidade. Enfim, não dava. Naquela noite eu fui até lá decidido a conversar sério com ela. Esqueci de passar na pitonisa e o Perferozinho arrancou meu braço direito, na altura do cotovelo. "Não foi nada, não foi nada, tudo bem", eu disse pra ela, "coisa de criança". Enquanto eu me esvaía em sangue a gente falou sobre a relação, expliquei pra Penélope que precisava de um tempo pra pensar. A gente nunca mais se falou. No fundo, hoje eu percebo, o que mais me incomodava era ser comparado com o ex dela. Não me sentia confortável com isso.

terça-feira, março 09, 2004
 
Irrequieto. Adj. que nunca está sossegado; que não pára nunca. 2. buliçoso, turbulento. 3. próprio de quem é irrequieto; que revela irrequietação.

domingo, fevereiro 29, 2004
 
No meio do nada
A rebeldia continua em alta. Pena que a repressão anda tao sumida... Adolescentes e jovens dos 60 e 70 são hoje os pais (ou até avós). Por isso: droga, sexo, política, sobrou muito pouco de tabu pra espernear contra. Dizem que os costumes vivem de ciclos, assim como a moda e os modismos. A onda retrô pode ser reflexo direto dessa busca por parâmetros de rebeldia (vestir-se como vestiam-se os pais ou avôs nao deixa de ser irônico). Se bem que o próprio "retrô" em si está longe de ser novidade. Contra quem se rebelar? Como hoje as velhas bandeiras libertárias dificilmente escandalizam senhoras zelosas e taciturnos conservadores de bigode (personificados atualmente apenas em auto-caricaturas), uma das tentativas é radicalizar nas demonstrações, tentar chocar com atitudes pretensamente extremas. Não que a postura seja exibicionista ou mesmo superficial. Pode, sim, não refletir a vontade sincera do aspirante a rebelde - que assumiria o comportamento mais por atitude do que por desejo. Mas quase nada que hoje seja feito no privado, por menos usual, tem o poder de incomodar a tal sociedade. E mesmo as demonstrações publicas de rebeldia são facilmente assimiladas. Daí a sensação, que se nota aqui e ali, de vazio e de "desidentidade". Como já se disse, liberdade nem sempre agrega alegria. Soltos no mundo, inconformados não sabemos exatamente com o quê, outra tentativa é abraçar qualquer bandeira cujo tom dominante seja o vermelho. Discursos vazios, imprecisos ou incertos até agarram, por falta de opção, uma porção de simpatizantes - pouco convictos. Surgem inimigos etéreos (sem corpo) como a globalização, o neoliberalismo. E o presidente americano, sempre um oportuno objeto de ódio, tem cara de bobo. Permanece a dominação estratificada, sim, e a supremacia de potência - mas, deve-se admitir, bem mais relaxada com a fim material do "outro lado". A velha esquerda latina barbuda assume o poder, os marines nao desembarcam, e tudo o que surge como protesto é: "traidores". A Revolução nunca esteve tão longe, embora muitos acreditem sinceramente no contrário. A última alternativa? Como sempre, n.d.a. Niilismo ou prazer vazio, o que vier primeiro. E quem esta reclamando?

sexta-feira, fevereiro 27, 2004
 
Branco no preto

1.
Imagina a cena. Isso era lá pela meia-noite. Cinco pessoas suspeitas (umas mais, outras menos) dentro de um fusca parado numa estrada de terra erma, no meio do nada. Tinham vindo da cidade pela rodovia até decidirem entrar no caminho. Rodaram mais uns dez ou quinze metros levantando poeira e pararam. É a primeira vez que o motorista dirige o fusca, a ré e na primeira estão arranhando pra entrar. E se o carro enguiça ou atola no meio do nada? Desligaram o farol e acenderam a luz de dentro do automóvel. No meio da escuridão, é a única claridade. Os cinco (quatro caras e uma moça) meio apertados nos bancos do Volksvagen branco estão espertos pra qualquer barulho. Só os barulhos da noite. Cada farol de carro que passa na estrada ali perto dá a impressão de que vai entrar pela mesma estrada de terra em que eles estão. Cinco minutos de indecisão, até que um dos caras se debruça sobre a superfície aberta do porta-luvas e começa o artesanato. Outro é o mais preocupado, se assusta com os faróis que cruzam rápido a via e chega a ter a ilusão de que um carro avança na direção deles. Enquanto isso o encarregado trabalha com esmero - nessa horas ele vira sujeito sério, é dono da situação. Um terceiro tem uns poucos minutos, talvez segundos, pra decidir afinal se sim ou se não. Mas ele já tinha resolvido, no fundo já tinha resolvido. Não tinha dúvida nem volta. Meio claustrofóbicos meio ansiosos o preocupado e o iniciante saltam do carro e esperam, olhando pro pretume da noite. O céu azul muito escuro quase se confunde com o preto do pasto. O chão embaixo do pé é cinza, por causa da luz que escapa de dentro do Volks. Pronto, avisam de dentro. Então é só pegar os vinte reais. A primeira vez a gente não sente muito mesmo, me diziam na volta pra cidade, enquanto eu dirigia e sentia, pela primeira vez, meus dentes da frente ficarem entorpecidos e um catarro amargo descer do meu nariz para a entrada da garganta. A primeira vez, como a de muita gente, foi num fusca branco, no meio do nada. Tava escuro mesmo, e naquela noite eu fui dormir antes do dia amanhecer.

2.
Tempo de criança. Dar cambalhota dentro da piscina. Quando a gente tá de ponta cabeça dentro d'água a água entra pelo nosso nariz. Associei depois as duas sensações, o gosto que fica na boca é mais ou menos o mesmo. Outra coisa que me lembrou foi aquele gel anestésico que o dentista esfrega na nossa gengiva antes de aplicar a anestesia de verdade. O cheiro é mineral, tipo calcáreo, pedra. Da primeira vez o único efeito foi passar um pouco do sono, que voltou logo mais, às três da manhã. Mas pula um dia e vai pra segunda-feira de carnaval. Duas vezes na mesma tarde, e nada de bater com força. Não sei bem o que eu esperava, talvez alguma coisa mais cinematográfica? Acho que não. Que corta o sono na hora isso corta. Também cortou um mal-estar que começava a me incomodar. O enjôo passou num instante. Mas, fora isso, que mais? "Paraíso na terra", foi a expressão que alguém mais experimentado tinha usado sobre a sensação provocada. Não alcancei. Eu paro um pouco pra pensar nessas questões agora, aqui, em cima do telhado da casa do... Um pulo do chão pra árvore, outro da árvore pro muro. Correr pelo muro estreito e, com outro pulo, alcançar a laje. Pronto, fácil, só um ou outro arranhão. Mas quem liga? Meu corpo só vai doer do esfoço desse alpinismo na quarta-feira. No telhado oposto eu vejo o Fernando. Agora pular da laje no chão e escalar o teto do outro lado do quintal, olhar lá de cima e ter vontade de pular. Me balançar no beiral, só sustentado pelas mãos (nem era tão alto assim) e, num salto, passar por cima da rede e cair no chão firme. Que coisa.

terça-feira, fevereiro 17, 2004
 
CARNÓPOLIS 2004!, já ouvi dizer que o Otávio Mesquita vai baixar por lá depois do Rio e antes de Salvador. Link ao vivo na Bandfolia. Vai ter baixaria? Lembro que quando eu tava saindo da infância, no carnaval a então Bandeirantes passava de madrugada uns bailes boca quente. Vermelho-e-Preto, Scala. Era a única época do ano que a TV mostrava baixaria da pura. Eu ficava assistindo e lembro do Chico Recarey, um espanhol já entrado em anos, que falava com uma voz de operado de garganta, e era o rei da noite, empresário, dono dos clubes. Não tinha baile sem que entrevistassem o Chico Recarey. E em entrevista ao vivo em baile de carnaval - isso já é folclórico - a mulata não escuta a pergunta nem o repórter escuta a resposta. Microfone estendido (barulho) "Tá gostando da festa?" (barulho) "Hein?" (música muito alta) "...a festa" (barulho) "Ah-hã..." (barulho, repórter gritando) "Você é daqui do Rio?" "hein?" (barulho, chega a boca mais perto do ouvido e grita mais alto) "VOCÊ É DAQUI DO RIO?" (ela começa a sambar, mas a boca fica perto do microfone) "Não, não, sou do Sul" "E você faz o quê por lá?” "hein?" "E VOCÊ FAZ O QUÊ?" (ela continua dançando enquanto responde) "Sou promoter". Depois de mais umas perguntas, ele chama outro link e o link não entra. Daí entra a panorâmica do salão, aquele monte de gente suando e se abanando com leque da Brahma. Mais uns quinze segundos e entra a vinheta do carnaval, que sempre começa com uma batucada ou com um tamborim solitário. Na tela, uma cascata de confete feita por computador. Comercial: cerveja/praia/mulher, locutor engraçadinho “e aí, cara?: aquele calor, aquelas me-ni-ni-nhas! Vai ficar olhando, ô panaca?” ("aprecie com moderação"); ESTOMAZIL, contra azia e má-digestão, ES-TO-MA-ZIL. Off: "Dolores decide contar a verdade a Maria de las Graças": (Dolores, voz dublada): estou grávida! Irrompe trilha sonora tensa. Solta música tema da novela. ..."amanhã, na Band". Vinheta da emissora. Vinheta do Carnaval. Som de frevo ao vivo, repórter Maria Núbia aparece na rua, no meio de uma pequena multidão. É começo da madrugada e cai uma garoa fina. O clima é de interior. Atrás da repórter, uma porção de moleques sem camisa fica pulando e fazendo caretas: "Aqui a festa não pára [gritaria dos moleques, segue o frevo, cuja procedência não dá pra identificar na tela]. Os foliões estão pulando na avenida principal desde ontem à noite e ninguém parece que vai ficar cansado". Passa um "trenzinho" em frente à repórter. O último da fila veste uma calça jeans rasgada e canta uma letra suja de funk. A repórter continua falando e, de repente, um rapaz desavisado, de camiseta e bermuda preta, entra trotando no enquadramento da câmera. Ele segura uma latinha de cerveja e grita "Aê, mulherada!" Quando percebe a câmera, já é tarde. A repórter: "Tá curtindo a festa?" (frevo) O rapaz nem escutou a pergunta. Só grita no microfone "AÊEEE!" A repórter tenta de novo: "Tá gostando da festa?" Daí ele percebe que ela perguntou alguma coisa, mas ainda não sabe o quê? No rosto dele surge um olhar meio diabólico e meio malicioso, não só por causa dos olhos vermelhos. Algo como se ele tivesse imaginado que a repórter tava tentando puxar papo com segundas intenções. Como se ele pensasse: ela tá a fim. "E aí?", ele pergunta pra ela, e coloca o braço esquerdo sobre o ombro dela. Ela tenta mais uma vez, com paciência e mais alto "Tá gos-tando do CAR-NA-VAL daqui?". Ele (entre malicioso e amigo): "Tô, tô sim. Como não? E você, ãh?, tá curtindo uma festinha?" Ela: "Você é daqui mesmo?" Ele não escuta, fica olhando pra câmera e rindo um sorriso flácido, ainda com o braço sobre o ombro dela. Ela grita: "Você é daqui mesmo?". (frevo, etc) Ele, virando pra ela: "Oi?". "VOCÊ É DAQUI MESMO?" Ele: "Na verdade... não! Eu sou de (...) E você, é daqui mesmo?" Corta pro repórter Antônio Pedro, o frevo é o mesmo. "Pois é. E por aqui parece que teve um pessoal que já passou da conta". A câmera fecha num rapaz estirado na calçada, abraçado com uma garrafa de Jamel. Da boca dele escorre um fio de baba e tem vômito espalhado pelo chão. Um outro sujeito, em condições não muito melhores, tenta “reanimar” o enfermo. Mas o que passa mal começa a dizer nomes feios. Antônio Pedro: “O seu amigo ta meio mal, hein? Abusou da cerveja?”, diz ao “enfermeiro”. O que passa mal começa a dirigir impropérios ao repórter: “Quem é você? Você não gosta de mim? Vai tomar no seu cu!” O repórter sai de perto. E o Otávio Mesquita prometeu que vinha.

segunda-feira, janeiro 12, 2004
 
Não é nenhum fim do mundo
A sensação começou em algum lugar da Europa Oriental, tipo a República Tcheca ou a Hungria. Um desses países melancólicos. No princípio achou-se que era um fenômeno local, depressão pós-comunismo, coisa de crise de identidade. Mas, com os meses passando, a coisa foi se alastrando - primeiro na outra metade do continente, e logo atingia todo o Primeiro Mundo. "Crise da pós-modernidade", disseram alguns, o conforto e a vida de rico desses lugares leva a esse niilismo, teorizava-se. Pois então: em pouco mais de dois anos o mundo inteiro, praticamente todas as 6 bilhões de pessoas, entrou na tal "crise existencial", que ninguém conseguia descobrir como surgiu. "Nada mais vale a pena, viver não tem mais sentido. O vazio, o vazio...". Essa frase era dita em mais de 200 línguas, fora os milhares de dialetos. O Fim da História, literalmente. A humanidade perdeu o seu elã. Discussões pouco entusiasmadas em vários fóruns internacionais acabaram decidindo pelo suicídio coletivo, a solução final, a destruição do planeta. Não importava muito como, mas o modo tinha que ser decidido. Preguiça, mas vamos lá. Distribuição de pílulas de veneno para todas as pessoas? Matadouros industriais em cada grande cidade? "Não!", uma voz se levantou. "Acho que a gente não pode fugir do clichê. Afinal, ficamos décadas com medo do holocausto atômico e acho que, no fundo, era um desejo escondido da gente que a catástrofe acontecesse de verdade. Eu desejava, no fundo, sofrer o pesadelo nuclear. Fora que é uma onda retrô, autos climas anos 80, quando ainda tinha URSS x EUA". "Demorô", concordaram em coro. Morte apoteótica! Agora só faltava entrar em consenso, porque, enquanto não houvesse unanimidade, não era justo acabar com tudo. Foi feito o plebiscito, de praxe, pra consultar todos os habitantes da Terra. E uma pessoa só não concordou com o fim. "De jeito nenhum! Aqui que eu vou morrer antes de conseguir!", era o Aderval. Religiosamente no Valentino, de terça a domingo, dando em cima da Claudinha (que também batia ponto). Mas nunca tinha chegado mais longe do que um beijinho, num dia em que ela estava especialmente bêbada. O amigo, Claudinei, comentando ali na varanda do bar prum outro colega sorumbático: "Pode esquecer, essa ele não come mesmo". E a humanidade sobreviveu, sofrendo.

sexta-feira, janeiro 09, 2004
 
Vai encarar?



 
# Bônus



quinta-feira, janeiro 08, 2004
 




terça-feira, janeiro 06, 2004
 
À NOITE EM LONDRINA DE MANHÃ
Agora há pouco, terça-feira, 6 de janeiro
Horário: entre 8h27 e 8h57
Intinerário: Casa, Valentino, Jota, Casa





 
Robin - Batman, eu não aguento mais lá em cima, tá um puta putero do caralho.
Batman - Puteiro não, Robin. Modere o seu linguajar.
Robin - É memo. A tia tá dando, a tia tá dando a buceta lá em cima. Tá dando, putero.
Batman - Então vamo fazê um negócio, vamo buscar umas putas pra trazer pra cá, vai.
Robin - Isso aí. Vamo lá, vamo lá, vamo pegá umas puta.
Coringa - Uhhh! Hoje eu vô comê o Bátima, vô fodê ele direitinho. Vô tirá o pinto dele fora.
Capanga - Hãn. E aquela biscate ali. Você não vai comer ela hoje não, hein?
Coringa - Ah, dexa ela pra lá. Essa menina aí não é de nada. Eu não gosto de mulhé, eu gosto mesmo é do Bátima.
Capanga - Esse cara pra mim é viado, hein.
Coringa - Hein... Minha filha vem cá. Sabe o que qué isso aqui, minha filha? Isso aqui é pá amolecê pinto, isso aqui cai pinto. É um lícodo que você passa na cabeça do pau.
Clotilde - Aaai, eu nem acredito que isso é pra caí pinto.
Coringa - É, mais você vai passá isso aí na cabeça do pau do Báá-tima.
Clotilde - Nãão, do Bátima? Eu nem acredito. Deixa eu vê.
Coringa - Não, não, não abre, não abre. Não abre que senão vai caí o meu pinto. Agora você vai fazê o seguinte: você vai pegá o Bátima e vai passá...
Clotilde - Tá bom, tá bom. Eu faço tudo que você quisé. Queridinho da mamãe, tesudinho, lindo.
Capanga - Ahhh, gracinha.
Capanga - Esse cara é viado, hein. Viado, hein.
Coringa - Opa, opa! Que negócio é esse que você tá me chamando de viado aí, hein? Ah! Ah! O Bátima tá chegando, hein. Vamo acertá ele direitinho agora, hein.
Robin - Pô, treis hora já caramba.
Batman - Eu sei vê hora, porra. Booom, o negócio é o seguinte. O pau vai corre solto aqui agora e, moçada, todo mundo pra trás.
Robin - É, o pau vai comê solto. O cacete vai comê hoje. Vamo bota o paua nessa merda aqui hoje.
Batman - Robin, modere o linguajar, por favor. Muito bem. Você trouxe a moeda que eu pedi?
Robin - Táqui, táqui na minha mão. Olha ela aqui na minha mão.
Batman - Então vai naquela máquina e ligue esta porra.
Robin - Hmmm, xovê, enfia essa porra aqui. Agora, deixovê, aqui. Isso aqui, isso aqui, isso aqui!
Coringa - Ah! O Bátima chegô. Agora eu vô tirá o pinto dele. O Bátima tá fudido na minha mão agora, ah. Ahhh, agora, agora. UHhhhh hu hu hu hu hu, isso é um assalto, seu filho da puta. Vira a bundinha pra mim, vira, Bátima. Viado, bicha. Seu dois bichas.
Batman - Rápido, Robin, para trás do bat-escudo. Dessa vez eu acerto esse filho da puta.
Robin - Bátima, daonde você tirou esse bat-escudo, hein? Porra, daonde você tirou essa merda?
Batman - Você tá muito engraçadinho, hein Robin. Lógico que foi do cu, podia ser de mais da onde?
Robin - Vô sabê onde você guarda essa porra?
Batman - Engraçadinho, você tá muito metido, hein Robin. Hã, eu te acerto hoje na batcaverna, viu? Você...
Robin - Ah, dexa pra lá, seu filha da puta.
Batman - Você me chamou de novo de filho da puta? Não acredito. Viadinho, filha da puta. Viado.
Robin - Seu maconhero do caralho. Cala a boca.
Batman - Robin, desculpa. Nós somos a dupla dinâmica. Temos que lutar em pról da justiça.
Robin - Hmmmm, vai se fudê, seu filha da puta!
Batman - Otra vez? Não acredito que você está me xingando otra vez, Robin. Vô te fudê agoia, agoia hein. Sai daqui filha da puta.
Robin - Não enche o saco, seu bicha. Você não faz nada comigo não, seu filha da puta.
Batman - Filha da puta?
Robin - Seu cala a boca!
Batman - Não acredito!
Robin - Seu viado do caralho, fiá da puta! Vem me pegá.
Batman - Robin, se você não sair daqui já eu vou te comer a bunda aqui mesmo, hein. Viado, seu corno manso.
Robin - Vai nada, seu fia. Vem me pegá.
Batman - Sai daqui já. Pára, pára, pára, pára. Esqueci uma coisa, esqueci uma coisa. Meu filho, você vende camisinha aqui? Eu quero uma camisinha. É que euuu preciso comê o Robin hoje à noite.

 
Coringa e capangas


Batman


Robin


Comissário Gordon e Chefe O'Hara


domingo, janeiro 04, 2004
 
Saga - o meu dia de nerd



...porque antes da terra média e depois da terra do nunca existe o reino dos que se chamam nerds. e é deles a tarefa de lutar até a morte com os terríveis computadores. o gênero humano está, cada vez mais, nas mãos desses seres mirrados (ou gordos), de óculos grossos e orelhas pontiagudas.

Hoje eu lutei a tarde inteira com o computador. Foi porrada feia, mesmo. Depois de suar pra cacete (literalmente, tá um calor foda), consegui fazer o treco funcionar de novo. Mas e na próxima? Só faltou ele dizer: "dessa vez você ganhou, cara! mas fica frio que a tua hora vai chegar. A chapa tá esquentando pro teu lado. Ah, e o seu computador já pode ser desligado com segurança ". Ele tinha dado um problema estranho, o monitor ficava preto sempre que ia entrar no windowns.

Eu sabia que debaixo daquela tela escura o windows tava funcionando, por causa dos barulhos que o windows faz e por causa dos barulhos que só o meu computador faz. Então, virei um usuário cego, era como tentar pintar um quadro num quarto escuro, só escutando os barulhos das topadas e dos tropeções. Não dava pra clicar em nada porque eu não fazia a menor idéia de onde o ponteiro do mouse estava, e muito menos onde estavam os ícones pra clicar. Só sabia que o problema era com a configuração do monitor. Mas a pergunta óbvia: como mudar a configuração do monitor sem conseguir nem enxergar o botão de "CONFIGURAÇÕES"? Até tentei tatear com o mouse, mas foi uma tentativa meio ridícula. Ele riu de mim, uma risada em midi., que era pra humilhar mesmo. Daí parti pra ignorância, resetei o CPU, por baixo, umas vinte vezes, a placa parecia que ia arriar dali a pouco. E nada, sempre a tela preta.

Eu tinha que fazer alguma coisa antes que o windows fosse iniciado, quando ainda aparecia aquele monte de letrinhas, no início. Era o único momento que eu enxergava alguma coisa. Porque era só entrar na área de trabalho e a tela pretejava. Li, muito rápido: "Para entrar no setup pressione 'del'". Foram mais algumas resetadas até conseguir entrar no setup. E quando entrei, nada de configurar o monitor. Fucei em tudo quanto era configuração e nenhuma prestava pro que eu queria. Saí do setup desnimado.

Daí até coloquei CD no CD-ROM e disquete no drive, antes de reiniciar, pra ver se ele dava alguma mensagem de erro que levasse ao DOS. Porque então a minha idéia era entrar no sistema operacional arcaico: o MS-DOS! O bisavô do windows, que, pouca gente sabe, todo computador ainda carrega. É uma espécie de ancião da caverna no topo da montanha. É velho, decrépito, ninguém dá muito por ele, mas quando a coisa aperta é dele a voz da sabedoria. Deve haver alguns meios de se chegar ao velho DOS, mas, ironia das ironias, o único que eu consegui me lembrar era... pelo Windows. Só que, como vocês viram no capítulo anterior, a terra do windows tinha se tornado uma região de trevas, de que nenhum usuário saía vivo.

Sim, pra chegar até o velho MS-DOS, o sábio Sistema Operacional dos Sistemas Operacionais, eu tinha que passar pelo que antes tinha sido o Vale da Área de Trabalho e, agora, tinha se tornado o Pântano da Perdição. E o único sentido de que eu podia me valer era a audição... com a intuição... e a memória. Porque, nos tempos claros, antes da catástrofe, eu vivia no Vale, e conhecia aquilo muito bem. E sabia que assim que o windows era iniciado, saltava na tela uma mensagem de erro, com um aviso sonoro estridente. Depois pulavam mais duas mensagens de erro e, enfim, o ponteiro do mouse estava livre para navegar. O código era simples: depois de soar a primeira mensagem, três toques na chave "enter". E os portões do Pântano estariam abertos. Eu tinha que acreditar nisso. Depois, tinha que teclar alt-f4, pra que aparecesse uma caixa (o gate keeper) me perguntando os quatro enigmas: você deseja:

o Colocar o computador em modo de espera
o Desligar o computador
o Reiniciar o computador
o Reiniciar o computador em modo MS-DOS

Era nesse última opção que eu tinha que chegar, só que às escuras. E eu não sabia qual era a ordem em que as perguntas iam aparecendo. Então, depois de apertar alt-F4, acreditando que tinha aparecido, por trás da tela preta, a caixa, fui tentando cada uma delas. Estava tateando, sem muita convicção. Tentei, tentei, tentei. E uma certa altura o computador deu, não uma, mas duas mensagens sonoras de erro. Pensei: "Pronto, fodeu!". E a tela piscou, um brilho rápido e ficou negra de novo. Só um pequeno cursor piscava no canto superior esquerdo. Mas quem se iluminou foi o meu rosto, quando, alguns instantes depois, surgiu, imponente, o sinal: "C:\WINDOWS>". Eu tinha conseguido, chegara aos domínios do Sistema. Mas isso era só o começo, porque mal sabia eu que a parte mais difícil da minha jornada seria dentro do MS-DOS.

Se o Windows, quando claro, é uma planície, em que tudo se vê e tudo se acha, o MS-DOS é um labirindo lúgrube, com dezenas de portas que vão dar em outras dezenas. E não tem nenhum mouse pra facilitar. Tudo funciona pelo teclado. E é preciso aprender a língua do DOS, que são os comandos. A palavra "dir" é o primeiro vocábulo. Invocando "dir" (e dando enter), o DOS lista pra você todos os programas, arquivos e sub-pastas de uma pasta. Não que isso facilite. São coisas como ARQ~1 [DIR], Subconfig.com. E dentro de algum dessas centenas de arquivos obscuros deveria estar a resposta para o meu problema. Deveria, mas mesmo assim sem muita certeza.

Tentei rodar os programas, tive que reaprender aos poucos os comandos. "Reaprender" porque eu sou dos tempos remotos, tempos antes dos tempos, em que não havia terra, não havia água e nem havia windows. Era o tempo do reinado do Caos e do governo do MS-DOS. Aos poucos fui me acostumando a me locomover por entre tudo aquilo. E lembrei que na verdade todos aqueles arquivos nada mais são do que as almas, os esqueletos dos mesmos arquivos que, no windows, são bonitos, coloridos e tão semióticos. Pelo DOS penam as almas dos mesmos programas que, no windows, podem ser acionados com dois cliques rápidos. Fui reconhecendo, por trás daqueles nomes feios e frios, o Internet Explorer, o Outlook, o Word - até a alma de Kazaa estava por ali, no mesmo diretório. Descido às profundezas do DOS, encontrei almas penadas de Softwares. Soa meio Dante, meio Homero.

Mas pra todos os programas que tentava rodar, a mesma mensagem: "esse aplicativo não roda no modo MS-DOS". Na mesma. Todos aqueles programas e todos aqueles diretórios eram inacessíveis para mim, como hieróglifos antes de Champollion. Pensei em desistir e esperar até segunda-feira pra falar com o técino. Mas minha sorte começou a mudar quando, em mais um dos Resets que eu dei, li na tela inicial, aquela com uma porção de letrinhas, um comando, que sumiu rápido junto com a tela. windows\command\ega.cpi. Tentei rodar esse comnado de diversas formas. Mas nada acontecia. Alguma coisa me dizia que ele era importante, mas não conseguia chegar. Mas e se... Claro! E se não fosse um comando e sim um diretório? Sim! Lá estava ele, escondido entre tantos outros. Uma caverna escondida, um sub-diretório remoto e inóspito, chamado c:>windows\command\. Eu tinha vagado por horas e horas no DOS e não tinha reparado nele. Entrei e, novamente, uma série de programas estranhos. Mas, quando digitei, vi que alguns rodavam. Já era um bom sinal.

Nisso já estava muito cansado, aliás, eu e o computador, porque ele mesmo tava levando três o quatro vezes o tempo normal pra rodar a cada resetada. Mas com a descoberta eu recobrei o ânimo pra prosseguir. Rodei a maioria dos programas daquele diretório (e nisso devo ter mexido em coisa que não devia, como mais tarde eu iria descobrir). Mexi, mexi, até que rodei um chamado edit.com. Uma tela se abriu na minha frente. Era um editor de texto pra DOS!, um editor de programas, em que dava pra mexer em todos os arquivos do computador (e foder de vez com tudo, se não tomasse cuidado).

Eu tinha visto vários arquivos de texto txt. nas minhas andanças, mas não ligava muito pra eles porque sabia que, sem o windows, não tinha como lê-los. São arquivos pequenos, redondos e com orelhas pontudas. Eles dizem coisas, mas você precisa de um editor de texto. E agora eu tinha esse editor de texto. O mais tosco possível, mas muito funcional. Comecei a abrir uma porção de arquivos txt., li muitos. Os mais promissores era os "leiame", que davam muitas esperanças mas nenhuma resposta concreta. É nesses txt. que o DOS guarda a sua sabedoria escrita. Fucei, fucei, li textos e mais textos. Um deles, no parágrafo final de um texto extenso, dizia: "ouve!, porque a verdade vos digo: no caso de teu monitor não funcionar sob o windows 98, a tua esperança é reiniciar o computador sob o Modo de Segurança. Para tal, deves, antes de que o windows se reinicie", e a mensagem acabava exatamente aí. Sem brincadeira! O texto estava pela metade justamente no ponto que eu precisava saber.

Mas uma coisa eu descobri: a partir daí minha busca tinha um novo objetivo: chegar ao "Modo de Segurança". Já conhecia o "Modo de Segurança" e algumas vezes o meu computador fora reiniciado sob ele. Mas não sabia que era uma opção. Achei que dependesse de fatores externos. Portanto continuei a perscrutar pelos pequnenos txts., li outros, mexi nos programas. E achei. Entre o arquivo Display.txt e o generals.txt estava a resposta. "Para que o teu computador se reinicie sob o "Modo de Segurança" deves pressionar antes, não durante, nem depois, antes de iniciar o windows, a chave "ctrl". Pronto.

Agora era só reiniciar, apertar 'control' e esperar. Mas quando tentei, assim que aparecia a opção pelo modo de segurança, o teclado deixou de funcionar. Eu tinha apenas que clicar na opção '3' e o computador entrava no modo de segunrança. Mas o teclado não respondia. Já quase em desespero comecei a martelar furiosamente o teclado "aparece, desgraçado, é só aparecer o '3'", mas tudo que consegui foi retornar ao prompt do dos: "C:>". A desolação mais uma vez se apossou de mim. E mesmo no DOS o teclado não respondia com sanidade, parecia louco. "^E ^F ^g", qualquer coisa que eu teclasse aparecia esse tipo de sinal. Puxando por um último laivo de lucidez, refleti alguns segundos e me lembrei que "^" é o símbolo de "ctrl". Sim!, o teclado tinha travado em "crtl" e era por isso que ele ficara louco.

Tinha que ser isso! Quando cheguei novamente às portas do "Modo de Segurança", antes de escolher a opção '3', apertei "ctrl", para destravar o teclado. E, sim, daí o '3' surgiu, em todo o seu fósforo. O "Modo de Segurança" me levou novamente para dentro do Vale do Windows. Meu júbilo foi indescritível, ao percorrer de novo aquelas planícies, mesmo que em 600x340. Só que o traiçoeiro computador ainda tinha uma das deles. Não apenas as 3 mensagens de erro me aguardavam. Uma quarta dizia assim: "O seu registro do windows está incorreto. O windows vai corrigir isso pra você. Seu computador será reiniciado". E, transtornado, toda vez que eu entrava no "Modo de Segurança" do windows, antes de poder fazer qualquer coisa, o próprio computador se reiniciava.

Mas dessa vez eu sabia exatamente qual era o problema. E iria direto ao ponto. Quando do meu périplo pelo submundo do DOS, havia mexido em um arquivo chamado "Registro do Windows". Havia começado a rodar esse arquivo mas tinha parado na metade. Voltei ao DOS, rodei o programa até o fim e, ansioso, reiniciei, pela penúltima vez o meu CPU. Desse vez tudo deu certo, e eu podia reconfigurar o monitor. E postar essa epopéia de nerds.

sábado, dezembro 27, 2003
 
Gúgolmancia
Uma boa pra quem não tem (mesmo) mais o que fazer. Entrei no Google, na opção busca por "imagens", e joguei, um de cada vez, os nomes do pessoal daqui, pro portal procurar (- exemplo -). Saíram as várias páginas com "tumbs" (fotos pequenas), de 20 imagens por tela. Quem tiver saco (e vontade) podia fazer isso de um por um. Mas, pra poupar tempo, eu já fiz uma "seleção". Abaixo eu coloquei as 6 ou 7 fotos mais interessantes da primeira página de cada nome. Quem sabe não vira um novo método esotérico de previsão, como a numerologia, a leitura de mãos e o mapa astral? A Gúgolmancia pode revelar o futuro das pessoas ou traçar a personalidade de cada um. Será? Bom, a interpretação depende de quem vê.

A primeira foto das séries que eu fiz é sempre a primeira que aparece no Google, as outras não estão em ordem. Legal reparar, especialmente, nas últimas fotos de cada série (um indício de que a Gúgolmancia tem algum fundamento). Tem alguma coisa de auto-imagem nessas últimas figuras, não tem?

 
RENATO



 
PAULO



 
FERNANDO


 
LUIS